A aproximação do verão convida os oliveirenses a preencherem a esplanada do café central, e nem o labirinto meteorológico da primavera os impede – afinal, estão abrigados de sol e chuva. É o lugar onde os anciãos de Azeméis se reúnem, famílias e amigos tomam o pequeno-almoço, e por onde políticos, empresários, artistas, industriais, professores, jornalistas e desportistas passam. Aquela “casa” – pastelaria e croissanterie no salão vermelho e snack-bar no salão azul – é parte integrante do quotidiano citadino, influente como outrora fora o centenário Flecha.
O elo entre a comunidade e o comércio espelha a autoestima de um concelho. Ainda que as raízes industriais desacelerem a fixação de padrões urbanos há muito assimilados nos concelhos vizinhos, as últimas primaveras lançaram sementes sobre Azeméis e duplicaram os motivos para permanecer, desde o pequeno-almoço até ao serão. A restauração citadina apresenta uma panóplia de excelência, da cozinha tradicional a ementas disruptivas, de conceitos norte-americanos a salões de chá, sem esquecer a farta pastelaria lusa.
Há muito para escrever a esse propósito. Uma carta de cada vez.
“Sumo de laranja sem gelo e uma torrada, por favor.”
Comecei a frequentar o café central há 10 anos, quando bebia cappuccino, comia campino ou croissant de vitela nos encontros de quarta e sexta-feira à tarde. Eram anos pré-universidade. Desde então, a gerência mudou, o salão azul reabriu, a decoração melhorou, os menus cresceram e algumas caras – felizmente – não mudaram. O senhor Rui e os senhores Paulo’s prevalecem, de sorriso fácil e humor refinado. São personagens indispensáveis, tal a marca nas diferentes gerações. E um novo sorriso reforçou o elenco nos últimos meses.
Dizem que se chama Maria. Detém uma energia contagiante, um sorriso rasgado e um humor imprevisível. Na manga leva piadas, gargalhadas e provérbios ensinados pela mãe. Não sei se alguma vez sonhou com este emprego, ou se pondera mudar de rumo, mas noto que dá seguimento ao legado dos três mestres, cuidando do elo com os clientes.
Se os elogios valem um aumento salarial? Duvido. Contudo, não há verba que supere o capital humano. Não recheia a carteira, mas dá alento.
“Um café e um brigadeiro, por favor.”
Estas quatro pessoas – e mais algumas cujo nome desconheço – são o motivo pelo qual regresso ao café central, ora para pôr conversas em dia, ora para desvendar novas histórias, ora para “fazer tempo”. Tiro-lhes o chapéu, pois imagino que trabalhar na restauração – sobretudo numa “casa” concorrida – não seja “caviar”. O sorriso e a cordialidade são parte da farda, mas optam por caprichar – e noto que o humor é genuíno. Tal como eu, dezenas de conterrâneos sentem-se acolhidos e motivados a regressar. Por tudo isto, este lugar pauta o quotidiano citadino, espelha Azeméis e sublinha a importância do comércio local.
Posto isto, encontramo-nos no Gemini. Há muito para escrever sobre a restauração e sobre as “casas” do comércio oliveirense. Uma carta de cada vez. Até já.
Santiago de Riba-Ul, 14 de abril de 2026