Domingo, 17 de Maio de 2026
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Ana, a filha da Azeméis que já não fala baixinho

> Desde a infância ouve dizer que a Ana Nunes é diferente e espetacular. E nesta Carta de Algibeira confirmou.

Oliveira de Azeméis. Década de ‘80. Naquela cidade industrial, rodeada por freguesias profundamente rurais, o ensino artístico era mera miragem, ainda que o pós-revolução tenha promovido o “boom” do cinema. Os aspirantes a bailarinos estavam obrigados a recorrer a Espinho e Ovar, conhecendo o destino para prosseguir estudos – a capital, pois claro. Estes foram os primeiros passos da protagonista desta carta – Ana Nunes – que regressou a Oliveira de Azeméis no final da infância, depois de alguns anos emigrada nos Estados Unidos.

“Fomos morar para Ovar e foi lá que tive o primeiro contacto com o ballet. Íamos de manhã para a praia de Espinho, na automotora, e à tarde para as aulas de ballet. A professora Conchita odiava areia na sala. Hoje compreendo-a. Na dança encontrei paz interior, compreendi que, afinal, não era burra e tinha cultura”

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A elétrica e genial professora – e artista – abre as portas da Fábrica das Artes e levanta o véu do espetáculo “A Aldeia que Falava Baixinho”, a estrear no Teatro Municipal de Azeméis (TEMA) a 2 e 3 de maio. A escola que Ana fundou em outubro de 2017 dá vida ao edifício outrora ocupado pelo calçado do clã Praça. Em simultâneo, marca a fronteira entre a história e a arte local, por oposição ao “fast food” importado dos Estados Unidos.

Para lá de dezenas de figurinos arrumados e balneários silenciosos, conversámos num banco de jardim instalado no salão principal, decorado e organizado a preceito para os derradeiros ensaios.
Recuemos. Para conhecer a Fábrica das Artes há que viajar pelo trajeto da fundadora, de Évora para Lisboa, da capital para Águeda e Aveiro, até ao regresso a Azeméis.

“Em Lisboa aprendi muito. O positivo e o que fazer de diferente. Ajudei a formar a primeira associação de estudantes da Escola Superior de Dança e ajudei à primeira greve. Fomos 150 alunos.”

Para lá da formação em dança contemporânea, Ana apostou na dançoterapia e trabalhou com portadores de deficiências motoras, além de passar por creches, pela Jobra, pela Escola de Bailado… E continua no Ginasiano. Até que arriscou e fundou a própria escola na cidade-natal. Afinal, já na adolescência se sentia destinada a tal empreitada. Talvez não antevisse, porém, as «batalhas» burocráticas e financeiras.

De 30 alunos em 2017 para 160 pupilos no fim de 2019, a pandemia testou, até ao tutano, a tenacidade deste sonho. Sempre a par da legalidade, Ana recorreu à quinta dos pais para “pôr chão e montar uma escola ao ar livre”, processo que culminou no espetáculo daquele ano letivo, algo tão épico quanto doloroso.

“Os pais pedem para repetir. Foi lindo, mas nem consegui ver a gravação. Foi muito duro. Seguiram-se anos de batalhas. A escola é privada, os pais são o nosso sustento. Cada espetáculo tem um orçamento para figurinos, adereços, montagem de cenário, luzes, som, etc. Envolve uma equipa de 50 pessoas e é pago de antemão, contando com a ajuda da bilheteira.”

Desde 2020, a Fábrica das Artes estabilizou, cresceu e fixou legado no ensino regional. Há um ano ficou definido que o espetáculo deste ano letivo beberia d’ “A Rapariga que Roubava Livros”, obra de Markus Zusak que remonta à Alemanha nazi. Aliviando o “drama” e transpondo para a realidade oliveirense, a equipa de Ana Nunes – alicerçada em Joana Campos e Andreia Soares – desafiou 200 “miúdos” entre os 3 e os 22 anos a perspetivarem o 25 de Abril de ‘74.

“É importante falar de História e comparar as mensagens do passado às atuais. Ficamo-nos pelos factos, precisamos de ter cuidado, mas sabemos que este não é um tema fresco para os miúdos. Nem para os jovens com 25 e 26 anos. Muitos não se interessam, outros não retiveram nada da escola.”

Segura de que o espetáculo está montado, a mestre confia aos pupilos a responsabilidade pelos mais novos, salientando o caminho pedagógico traçado.

E os pais? Compreendem o “timing” dos processos? Nem sempre.

“Aqueles dias no teatro são, talvez, mais importantes do que quatro dias na escola, ou de férias. Não há resultados num papel. Os adultos ficam na dúvida, acham que podem estar a ser enganados. Mas nós explicamos. Se entenderem, melhor. Estou mais importada com os mais novos. Têm pouco tempo de reflexão, é imposto um molde de pensamento.”

Em dias marcados pelo termo “Liberdade”, Ana elege a música “Estado Novo” de Tiago Nacarato para apontar ao próximo passo de Azeméis. Face ao século passado, a artista reconhece que urge reestruturação, debate e investimento na cultura.

“Em Oliveira não se fala baixinho, mas vivemos num Mundo supérfluo, muitas pessoas não refletem sobre o que dizem. O concelho esteve 40 anos parado a nível cultural, o investimento começa nas escolas e é algo que leva 20 anos até dar frutos. Não acontece de borla. O Luís Portugal tem uma ideia interessante, de as escolas virem ao teatro. E há que reunir os agentes culturais em debate. O teatro tem de ser essa casa!”

A tarde seguia imaculada no exterior, antevendo a hora de ponta. A efémera pacatez da rua contrastava com o fervor silencioso acumulado na Fábrica das Artes. A 2 e 3 de maio, o TeMA vai viajar no tempo em três sessões – sábado (16h00 e 21h00) e domingo (17h00) – fundindo a história de Portugal, Azeméis e de Ana Nunes. Lá no passado, no silêncio do íntimo, a professora Conchita – desaparecida deste Mundo há poucos meses – estaria muito orgulhosa desta pupila.

Desde infância escuto que “a Ana Nunes é diferente, é espetacular”. Confirmo. É distinta, única e irreverente. No cabelo pintado de preto esconde madeixas púrpura, depois de arriscar noutros tons, espelho de quem carrega arte, sonhos, anseios, argumentos e brilho na mente. E respostas na ponta da língua.

São figuras como a Ana que fazem Azeméis avançar. Basta querer.

Santiago de Riba-Ul, 26 de abril de 2026

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