“Boa tarde, vendem cromos do Mundial? Não? Obrigado.”
Estávamos algures em maio de 2014. Eu era mais um colecionador dos aliciantes cromos da Panini, febre que terminaria depois de 2016. Uma vez que os quiosques aguardavam pela renovação de stock, arrisquei entrar na Casa Velha no caminho para casa após a manhã de aulas. O icónico restaurante da zona industrial de Azeméis tem as refeições e o presunto como tradicionais cartões de visita, acolhendo centenas de metalúrgicos. E não só. Todavia, a maioritária presença masculina no salão de entrada gerou preconceitos ao longo das décadas.
Daquela rápida visita em 2014 apenas me recordo da azáfama que cobria o salão. Foi a primeira vez que entrei na Casa Velha, restaurante à beira-estrada inaugurado em 1985 por Fernando Brandão e herdado pelo filho Marcelo Brandão e respetiva família.
Quem passa pela fachada terracota não imagina o segredo guardado para lá do salão de entrada e da sala de refeições. Há uma esplanada idealizada para o verão e uma sala de jogos que mistura a vivacidade juvenil com a nostalgia de outras décadas. Um oásis em Azeméis e uma empreitada iniciada quando a pandemia exigia distanciamento e arejamento reforçado.
A ideia estava engavetada e até já fora ensaiada, mas Marcelo – filho de Marcelo Brandão – e Catarina deram o passo seguinte, dotando o espaço de tons acolhedores e trunfos para acomodar enchentes.
Doravante, a Casa Velha começou a conquistar novas franjas de jovens adultos e a compor um importante capítulo à porta dos 40 anos.
No verão de 2024 regressei àquele restaurante pela primeira vez desde 2014. A cronologia fizera justiça ao negócio, não só elogiado pelas refeições e pela esplanada, mas também à boleia do elo com a equipa de basquetebol da UD Oliveirense. Além de visitas frequentes, atletas de diferentes épocas ofereceram a “jersey”. Um simples – mas importante – sinal de gratidão.
Ora, não regressei à Casa Velha propriamente para me alimentar, mas para trabalhar, uma vez que na esplanada eram transmitidos – em tempo real – os jogos do Euro 2024. Arrisquei e tornei-me cliente frequente durante tardes e noites, muitas vezes rodeado por amigos, conhecidos e meros conterrâneos.
Eles e elas, industriais e estudantes, de diferentes gerações. Amigo puxa amigo e a esplanada virava bancada. O ponto alto eram – naturalmente – os jogos da Seleção. Havia mesas reservadas, havia quem chegasse cedo e quem se encaixasse junto às paredes. Havia espaço para todos! Casa
(Velha) cheia! Bifanas, pregos no pão ou no prato, presunto, batatas, refrigerantes – os anfitriões não tinham mãos a medir.
Como esquecer as lágrimas após a vitória nos penáltis frente à Eslovénia? Ou a montanha-russa de emoções que culminou em desilusão contra a França?
Daquelas semanas retenho o sentido de pertença, a igualdade e o convívio na Casa Velha. É essa a principal influência da Seleção, independentemente da modalidade. No caso do futebol, recordo com nostalgia a transmissão do Mundial 2010 na saudosa Escola Bento Carqueja, tal como as verdadeiras enchentes na Praça da Cidade entre 2012 e 2018, quando ainda se tolerava o pequeno e imprevisível ecrã “gigante”.
Quanto à Casa Velha, depois do Mundial 2022, do Euro 2024 e da Liga das Nações em 2025, o Mundial 2026 vai dominando as televisões e os debates ao balcão. Apesar dos horários – ao fim da tarde, noite e madrugada – a esplanada promete evoluir para bancada.
Se vamos assistir ao Portugal-Argentina dos quartos de final às 02h da madrugada de 12 julho (domingo)? Vai da vontade de Roberto Martínez – e dos “Marcelos”.
Encontramo-nos na esplanada, vestidos a rigor! Brindemos à Casa Velha.
Praia da Areia Branca (Vila Nova de Gaia), 21 de junho de 2026





Uma resposta
Um outro olhar chama a atenção para coisas ” invisíveis”.
Grata, Samuel.