Sábado, 1 de Agosto de 2026
Sábado, 1 de Agosto de 2026

Um pé em Bordéus e 26 voltas ao sol

> Em julho o nosso cronista Samuel Santos foi ao Tour de France, completou 26 anos, e... apenas escreveu esta Carta de Algibeira. Neste artigo, fala sobre o movimentado mês, e deixa a promessa de acertar contas com os leitores no calmo mês de agosto.

Começo a rascunhar sobre esta carta no caderno habitual – a caminho da última folha – em pleno voo, algures entre Portugal e França. Pelo relevo desconfio atravessar as Astúrias. O trio de cadeiras de emergência é só meu, tenho tempo e espaço. Uma sorte num voo low-cost, a menos que haja uma emergência. O destino é Bordéus, irmã do Porto desde 1978, capital internacional do vinho e cidade obrigatória na Volta a França em bicicleta – Le Tour.

O meu elo com o ciclismo surgiu antes de nascer, garante a minha mãe, que terá assistido ao Tour de ’99 nos últimos dias da gravidez. Desde infância tenho memória de assistir à Volta a França e à Volta a Portugal no canal público, em longas tardes de verão a par do meu pai.

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O rascunho desta carta tem mais de três semanas e antecedeu as reportagens para o Maisfutebol. Tal como há um ano em Toulouse, a viagem fez-se à boleia da VELUX – quem diria que uma marca de janelas é um dos principais patrocinadores da mais conceituada prova de ciclismo.

No voo para Bordéus, o corpo estava nas nuvens, mas a mente em Terra à conta de ideias para reportagem e entrevistas, o Mundial de futebol, esta carta e demais preocupações em solo nacional. No entanto, naquela hora, o “modo avião” impôs-se como um breve silêncio entre parágrafos. Raro, mas útil. Aproveitei para observar as nuvens, o que está acima delas e os diferentes tons do céu limpo ao final da tarde. Não havia ruído.

Aquele espaçamento anormal entre parágrafos obrigou a respirar.

Seguiram-se dias tão intensos quanto abrasadores e imprevisíveis, com os momentos prazerosos a prevalecerem, sobretudo quando expandi horizontes culturais, económicos, sociais e desportivos. De facto, Porto e Bordéus têm muito em comum – a vinicultura, a arquitetura, o rio, o sentido de resistência, a Rua Santa Catarina e até clubes históricos em ruína (Boavista e FCG Bordeaux) – mas a “nossa” Invicta deveria aproveitar o elo para aprimorar a promoção da própria História.

Ainda que o Douro seja muitíssimo mais belo do que o lamacento Garonne, Bordéus ostenta o Cité du Vin e o Bassins des Lumières como cartões de visita. Ambos na periferia, mas nem por isso esquecidos. O primeiro é um decantador gigante, o templo do vinho – para muitos, a “pomada” de Bordéus é a melhor do Mundo – enquanto o Bassins des Lumières é o reaproveitamento de uma antiga base submarina das tropas nazis, quando Bordéus foi invadido durante a Segunda Guerra Mundial. Em 2020, o enorme complexo de betão transformou-se no maior centro de arte digital do Mundo.

Ora, como escreveu Fernando Pessoa, o «valor das coisas» está na «intensidade com que acontecem», o que pode atrapalhar a vontade de escrever com nostalgia, num registo diferente mais literário do que jornalístico, pois requer predisposição – física, psicológica e emocional. Em fases conturbadas desta maratona – a vida – “bolhas” de poucos dias idílicos provocam especial nostalgia pelo desejo de que as preocupações apenas se esfumem.

Por mais voos e desconexões momentâneas há soluções que requerem paciência, tranquilidade, tenacidade e pragmatismo. Sem pressa, por maior que seja a vontade de enfrentar o contexto. Difícil, bem sei. Por vezes, o melhor é impor um espaçamento anormal entre parágrafos e obrigar a parar para respirar.

E orgulhosamente nunca só.

Para lá de aventuras profissionais, julho trouxe muito amor graças à 26.ª volta ao sol. As celebrações foram comedidas, mas sentidas. O amor, permanente, impactante e regenera. Sou muito grato. Caríssimos leitores, o mês de agosto trará a oportunidade de respirar, sair à rua e escrever com maior frequência, por fim acertando contas.

Afinal, junho só teve uma carta. Sinto-me capaz de vestir a camisola da montanha do Tour de France, às bolas vermelhas.

A viagem segue!

30 de julho de 2026, Santiago de Riba-Ul

Samuel Santos
Author: Samuel Santos

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