Sábado, 3 de Janeiro de 2026
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“Já escreveu tudo?” – Última paragem: 2026

> O jornalista Samuel Santos escreveu a sua última "Carta de Algibeira" de 2025 no embalo do comboio de Natal que liga nesta quadra natalícia o centro da cidade ao Parque de La Salette.
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O sol de 26 de dezembro – sexta-feira – esgueira-se pelo horizonte e combina os tons alaranjados com o dourado das luzes no Parque de La Salette. O ar gelado não demove a multidão e a euforia infantil contrasta com o silêncio citadino. Há espaço para todos no pulmão de Azeméis.

Nas fileiras de carros improvisadamente estacionados irrompe o comboio de Natal, apetrechado de conterrâneos, forasteiros e transeuntes. Pintado de vermelho e branco, com adereços verdes e luzes douradas, anuncia-se pela distinta buzina, enquanto gagueja nos paralelos, recebendo energéticos acenos dos petizes e sorrisos nervosos dos adultos. Nada a temer!

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Como na hora de ponta, famílias entram e saem, desconhecidos apertam-se e economizam espaço. Mas há tempo para sorrir e escutar elogios – os forasteiros estão encantados. E ali estou, na última carreira, rumo ao centro da cidade e sem viagem de regresso ao parque. Não me importo, apesar do ar cortante. Estou – quiçá excessivamente – investido nesta ideia.

Ora vamos lá. Motor a funcionar…luzes apagadas. Por certo um soluço. De novo. Não há condições. Problemas mecânicos instalam a desilusão e antecipam regressos ao conforto do lar.
Se a carta poderia terminar neste parágrafo e servir analogias mal-intencionadas? Precisamente por isso não termina.

Teimoso, regressei na tarde seguinte, de novo quando o sol se estendia pelo horizonte. Naquele sábado, as atenções em volta de um casamento ibérico não deixaram as carruagens vazias. Lotação para lá de esgotada e inúmeros comentários sobre a corpulência do noivo, a afluência ao comboio e o rigor do inverno. Escutam-se animadas conversas em português, inglês, francês e castelhano. Há esperança no pulmão de Azeméis, uma luz para o Mundo.

Infelizmente, a viagem arrancou sem Manga Foe-Ondoa, jovem francês – de 20 anos – e futebolista da UD Oliveirense, que recebeu a família na cidade que o acolhe nestes meses – minúscula comparada a Paris. Uma breve conversa em inglês e francês não resolveu a falta de espaço. Por certo terá aproveitado o domingo.

O alcatrão sinuoso torna a viagem desafiante, ainda que o ponteiro não ultrapasse os 30km/h. Nas descidas faz-se fé de que a suspensão e o travão estão aptos. O melhor é observar as luzes da cidade e aqueles que esperam pelo comboio junto ao tribunal. São raros sinais de vida no jardim central, ladeado por montras encerradas e portas trancadas. Durante a troca de passageiros, aproveito para rascunhar ideias.

“Já escreveu tudo? Vamos arrancar”, atira Júlia Guerra, a anfitriã da viagem. Vareira de sangue – orgulhosa filha de Ovar – é a alma deste comboio, de um sentido de missão eserviço público que merece distinto reconhecimento. Obrigada a mudar de rumo profissional, arriscou em conhecer a Europa, transportando excursões, ou, por exemplo, clubes desportivos. E venceu. Fala francês e inglês, guarda inúmeras histórias e, por estas semanas, faz as delícias ao volante da locomotiva de Natal.

É Júlia Guerra, uma mulher de fibra. Essência vareira. Um dos rostos que ilumina o Parque de La Salette nesta quadra, a troco de pouco e expostos a críticas fáceis e vazias. Em todo o caso, à falta da atenção das “altas patentes”, são escudados pela gratidão de meros desconhecidos, aqueles que verdadeiramente dão sentido à missão.

Sol posto. As carruagens regressam ao parque como partiram – lotadas – irrompendo pelo desfiladeiro de paralelos, atraindo sorrisos e acenos. E a dinâmica repete-se: famílias saem e entram, outras questionam sobre bilhetes (inexistentes, pois a viagem é gratuita) e horários. É já tradição, motivo de nostalgia e sensação de porto-seguro.

Terminada a viagem – de comboio e de 2025 – reservo o derradeiro parágrafo da 30.ª carta aos leitores, amigos, editores e “conselheiros” das Cartas de Algibeira. A vocês, em especial, desejo um novo ano repleto de saúde, paz e amor. Que as nuvens sejam passageiras, mas que nenhum momento seja desprovido de aprendizagens. O vento, a chuva, a tempestade, o calor, o sol e a noite são peças indispensáveis. A todos, um ano muito feliz, se possível na companhia do Jeremias e do Samuel. Continuaremos por cá. Ora críticos, ora apaixonados, mas sempre vivos.

Um ano e (quase) três meses passaram a voar. Até já!

Santiago de Riba-Ul, 28 de dezembro de 2025

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