Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026
Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026

Estatuto, marionete e verdade

> Oliveira de Azeméis ergueu um reconhecido estatuto industrial, mas por detrás dos prémios, discursos e números permanece uma realidade menos celebrada: trabalhadores reduzidos a ferramentas, carreiras pouco reconhecidas e famílias marcadas pelo desgaste.

«Living is easy with eyes closed Misunderstanding all you see»

A composição de John Lennon em 1966 para o tema “Strawberry Fields Forever” – «Viver com os olhos fechados é fácil; interpretando erradamente tudo o que vês» – recupera a despreocupação da infância, em contraste com a responsabilidade do adulto, que encontra na ingenuidade e no comodismo refúgios aliciantes. Mas o tempo é inevitável, como as ondas do mar – o que não é da sua natureza há de voltar à superfície.

Oliveira de Azeméis é proclamado como referência empresarial e industrial, com menções para lá do Atlântico. É um estatuto factual, o culminar de décadas de investimento iniciado por figuras corajosas e visionárias.

Em todo o caso, muito se deteriorou e o humanismo quotidiano ficou pelo caminho.
Todos os anos renovam-se premiações, discursos, fatos, gravatas, aplausos, votos, sorrisos amarelos, promessas, projetos, carros e textos hipócritas nas redes sociais. A indústria – não só a metalúrgica – é a “terra prometida” a muitos adolescentes saídos do Ensino Secundário, iludidos pelo conceito de independência financeira, além de jovens universitários e emigrantes. Por norma é a porta mais fácil de abrir; ao passo que uns entram repletos de energia, outros saem esmagados, esgotados e desiludidos, tal o banho de realidade – até porque a inteligência emocional e a descoberta vocacional continuam a ser negligenciadas nas escolas. Crê-se que a prioridade é um número numa pauta, não o que se leva no peito. É a melhor via para formar adultos insensíveis como cromos repetidos.

Nessa senda, a democracia fica à porta de muitas fábricas e empresas, cada trabalhador é um número, sem opinião, sem voz, uma ferramenta para atingir resultados e, por consequência, os galardões que o patrão ostenta numa vitrine esquecida e limpa por outrem.

Afinal, quanto vale o esforço, o famoso amor à camisola e carreiras de décadas? Pouco. Quase nada. Talvez só mais uma palmadinha nas costas. Pode valer uma promoção enganosa, um estatuto que colmata a ausência do verdadeiro reconhecimento. Uma vez que os valores democráticos ficam à porta, os alegados empoderados alimentam o ego pelo domínio, sem se aperceberem que continuam a servir de fantoche. E assim se consolida uma dinâmica com desfecho imprevisível, sem que tal prejudique a cúpula empresarial.

Estão alienados desses problemas mundanos.

Famílias com futuro incerto, tensões, negligência da saúde mental e vícios em forma de escape. É terreno fértil para interpretações enviesadas da realidade, preconceitos e embrutecimento. Mas alguém se importa? Neste carrossel de sobrevivência, a tensão é
instigada por quem aproveita para cair nas boas graças da chefia, vestindo a farda de marionete e alimentando o ego.

Nada disto é referido nos discursos, porque não importa. Nenhuma destas figuras é mencionada nos textos publicados nas redes sociais. O humanismo é elementar nesta realidade industrial e empresarial.

Felizmente há outras rotas neste concelho. Renovados começos. São cada vez mais os casos de homens e mulheres que deram o passo em frente e arriscaram em diferentes ramos profissionais, investindo na formação humana e técnica. O primeiro passo é o mais exigente e longo, exige coragem e apoio. Mas o tempo revela-se justo.

Este não é um manifesto político, apenas o relato escutado em Oliveira de Azeméis e lido em várias plataformas online e órgãos de comunicação social. É neste reconhecimento da realidade que se recuperam valores, reorganizam “casas” e reerguem equipas. A não ser que a educação, a formação e o humanismo sejam perspetivados como ameaça ao sistema vigente.

Oliveira de Azeméis espelha um país pautado por resultados efémeros, mesquinhices, ilusões, monopólios e egoísmos, não pela valorização humana. Mas o tempo é inevitável, tal como as ondas do mar.

No fim, os euros não garantem felicidade, tampouco paz e consciência leve. E é nesta convicção que sigo viagem. Prefiro manter os olhos abertos, por tão dura que seja a verdade. Só assim aprenderemos a viver.

19 de agosto de 2026, Santiago de Riba-Ul, às portas da zona industrial

Samuel Santos
Author: Samuel Santos

Subscreva a newsletter azeméis.net
Facebook
Twitter
Email
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

LEIA TAMBÉM

Leia também

+ Exclusivos

Os ARTIGOS MAIS VISTOS

×