Nem tudo é mau no fim do verão. As folhas pintam as ruas em tons alaranjados e avermelhados, o céu revela outras nuances, os miúdos regressam à escola, a vida abraça renovados desafios, os ciclos desportivos mudam e o basquetebol regressa – a off-season continua excessiva. É neste embalo que visito o coach Pablo Cano no último sunset do verão, no Pavilhão Dr. Salvador Machado.
O jovem treinador uruguaio, de 34 anos, guarda inúmeras histórias – é um aventureiro nato, tem o passaporte recheado. Em sete anos passou, por exemplo, por Espanha, Israel, Chipre, México e Venezuela. Pelo meio regressou ao Uruguai para integrar a equipa técnica da seleção feminina.
De atleta a treinador, de sonhador a académico, este filho de Montevideo é alto, de cabelo farto e barba aparada; sorriso pronto, postura determinada, voz grave e olhos grandes e castanho-claros. Não dispensa a prática desportiva, o “assado uruguaio” ou uma boa lasanha, de preferência acompanhados por sumos naturais. Acima de tudo, Pablo Cano traz na alma a cultura do “mate” – ou Chimarrão – bebida quente que convida à introspeção. Já lá vamos!
A aventura do coach no basquetebol começou há quase 30 anos, em Montevideo – capital do Uruguai.
“O meu pai levou-me pela primeira a ver um jogo. Como qualquer menino, também fui fanático por futebol, mas o meu pai guiou-me ao basquetebol, então joguei pelo Albatros. Até que nos mudámos para Malvín e representei a equipa local. Não é o clube mais rico em orçamento, mas é histórico e riquíssimo na formação, com olfato para captar e trabalhar talentos. Desde cedo apaixonei-me pela modalidade.”
Fruto do amor entre um médico e uma arquiteta – figuras com forte elo à “cultura, música, poemas, mas também à identidade bairrista” – o coach descobriu a vocação para treinar aos 10 anos. Revela que “brincava a ser o treinador” nos intervalos escolares.
“Sempre tive muita curiosidade e muito interesse pelas conferências de imprensa. Ouvia e lia sobre isso”. Ora, caro Pablo, temos bastante em comum, posso adiantar.
Durante a adolescência, o coach despontou no Defensor Sporting, chegando a adjunto da equipa principal. Ainda que tenha começado a estudar Economia na universidade, a morte de uma avó lembrou-o da efemeridade da existência, pelo que investiu na formação enquanto treinador e enveredou na Licenciatura em Educação Física. E em 2019 deu o salto para a Europa.
Alertado por um professor, Pablo conquistou uma bolsa académica. Até poderia escolher Argentina ou Brasil, mas fez jus ao espírito e aventurou-se por Espanha – e os “deuses do basquetebol” trataram de o colocar em Valência.

Da Disney à elite
“Descobri que Valência é uma das cidades mais bonitas do Mundo, muito bem cuidada, com uma universidade de topo. O Valencia Basket Club é a Disney da modalidade, com instalações de topo”. O encanto foi tal que este autodidata se predispôs a assistir diariamente aos treinos, entre as 16 e as 23 horas, analisando os métodos na formação e o desenvolvimento da equipa principal, um colosso na elite espanhola. A dedicação valeu oportunidades na estrutura, nomeadamente no departamento de análise e observação.
Insaciável, o protagonista desta carta especializou-se em Análise de Dados no Alto Rendimento e bebeu da sabedoria de pares no Hapoel Be’er Sheva, na seleção do Chipre, na seleção feminina do Uruguai, no Trotamundos e no Abejas de León. De bagagem a abarrotar, Pablo Cano atingiu 2024 com o objetivo de se afirmar como coach. Por isso, reabriu a porta de Espanha e agarrou o leme do Fibwi Palma, na terceira divisão.
Para lá do “baloncesto”, Pablo estreou-se com uma época assente na confiança, paciência, humildade, união, coragem e sentido de pertença, ingredientes determinantes para subir de divisão. Na temporada seguinte (2025/26), o Fibwi Palma garantiu a manutenção sem desesperos.
“Sou muito grato e mantenho contacto com muitas pessoas do clube. A grande virtude foi a conexão humana, transcendendo a vertente desportiva”. No lançamento enquanto treinador principal e profissional na Europa, Pablo Cano já firmava créditos e aproximava-se da elite.

Então…porquê a Oliveirense?!
“É um clube muito importante. Sinto-me honrado. Conheço profundamente os atletas que foram campeões, assim como aqueles que jogaram no Uruguai ou que defrontei noutros países. Não começámos do zero – seria um desrespeito pela história da Oliveirense dizer isso – é um bom lugar para trabalhar o projeto e construir métodos com entusiasmo e paciência. Disfruto de trabalhar os jogadores e de construir processos. O projeto da Oliveirense corresponde ao meu perfil. A equipa vive uma fase de reestruturação orçamental, geracional e de métodos. Então, estamos a trabalhar também em prol do futuro, que pode ser muito interessante. Sinto que podemos marcar a diferença.”
“O pavilhão nada deve aos pavilhões da segunda divisão espanhola. Eu sabia que este é um pavilhão grande, mas fiquei impressionado pela dimensão e pelos recursos. O meu gabinete – a minha oficina – é um lugar bonito e muito confortável. Vi vídeos dos adeptos e da nossa casa cheia, espero que aconteça muitas vezes durante a época.”
“Já analisei e observei a Liga portuguesa em diferentes momentos – no Uruguai, em Espanha ou no México. É um país onde os atletas se revelam. O basquetebol português continua a crescer e as próximas gerações vão ser ainda melhores. Espero ver Portugal no Mundial de 2027.”
A par de Pablo Cano vai estar Miguel Matos, valecambrense que trabalhou no Vitória nos últimos nove anos e que vai assumir os sub-23, e o preparador Rafael Vaz, figura já habitual no clube e na Seleção feminina.

De 2025/26 prevalecem Diogo Araújo, Miguel Fonseca e Filipe Dionísio. Já Malik Morgan regressa a Azeméis após uma época no Sporting. A principal renovação acontece nas fundações do projeto, face à saída do coach João Figueiredo (Sp. Braga) e do mestre Carlos Pinto, além de José Barbosa e André Bessa – o ponto final na geração do bicampeonato.
A vida segue o seu rumo. Nada se perde, tampouco se esquece.
Quanto ao perfil tático do novo coach, a Oliveirense mantém a aposta na juventude, mas transita de uma escola puramente nacional para uma “salada” de contextos sulamericanos, latinos, espanhóis e da Europa de Leste. Pablo Cano é um timoneiro estudioso, meticuloso e exigente, que aprecia a intensidade ofensiva, apimentada com pragmatismo e eficácia no lançamento exterior. Já na defesa, a versatilidade, o trabalho sem bola e a agressividade são cartões de visita.
Conectado ao coração do grupo e emocional por natureza, Pablo Cano respira o “nós” a cada alvorada.
A nova era já começou
Na preparação para 2026/27, a Oliveirense já mediu forças com Benfica, Vitória, Ourense e FC Porto, estes dois últimos em Espanha, num torneio repleto de apontamentos.
“Não jogámos como queríamos, mas estou contente com a preparação. Está claro o que queremos fazer ofensivamente. Defensivamente continuamos a trabalhar a aprendizagem tática e técnica, devemos ser pacientes. Estamos só a 20 por cento do que podemos atingir. Por agora estou muito contente. O tempo vai revelar uma equipa muito mais equilibrada.”
Ainda sem o plantel completo, segue-se a tradicional Azeméis Basket Cup e a homenagem ao (eterno) capitão José Barbosa, a 25 de setembro (sexta-feira, 21h). Uma noite para a eternidade, a devida celebração de uma carreira única.
Um adjetivo ou uma palavra para cada atleta
Desafiado, Pablo Cano revelou pragmatismo.
“O Salvador Victo é o Marcelinho Huertas, tem aspetos físicos semelhantes a esse brasileiro, que foi muito importante para a sua seleção, jogou nos Lakers e está na liga de Espanha aos 43 anos. O Malik Morgan é líder. O Gyasi Powell é o shooter; o Prentiss Nixon é o criador. Jay’Den Turner? El Gato! Pela elasticidade, rapidez, tem umas mãos fantásticas, uma predisposição excelente para o treino e para a intensidade. Diogo Araújo é o capitão; Filipe Dionísio: potencial; Miguel Fonseca é coração. Svalbe? Intensidade. O Caelum: talento. E o Tiago Dias é o mago.”
O elo entre Pablo e Tiago Dias remonta a 2024, quando o coach trabalhou com o base português em Palma. Agora, aos 20 anos, o base formado entre Porto, Gaia e Espanha reencontra o timoneiro.
“O Tiago está mais maduro, um pouco mais atrevido e muito feliz por estar perto das suas gentes. Vejo o Tiago muito feliz e vejo muito potencial nos nossos bases, tanto no Salvador como no Tiago. Temos de ser pacientes e trabalhar muito.”

A Oliveirense inicia a fase regular do campeonato a 3 de outubro, em Portimão (16h).
Até lá, Pablo Cano e a esposa – analista de dados e já instalada por cá – vão poder passear, observar o céu, apreciar a pacatez e a natureza de Azeméis, além de beberem longos “mate”.
“Estamos muito contentes, nunca morámos numa cidade tão tranquila, estamos a gostar muitíssimo. Já fomos ao Parque de La Salette e eu corro, então vou conhecendo a cidade. Nos momentos livres gosto de ouvir a Radio Uruguay, porque me conecta com a minha família, e também aproveito para conversar com eles. Interesso-me pela cultura e pela atualidade. Não sou indiferente ao que me rodeia.”
“Tenho o mate aqui no gabinete, assim que chego vou logo prepará-lo. Tenho o hábito de, antes dos jogos, subir ao campo com o mate e tomá-lo calmamente. É semelhante ao café, mas mais introspetivo, porque nos convida a refletir, bebendo com calma durante largos minutos, e reabastecendo.”
Espiritual assumido e discípulo de mestres como Gerardo Jauri e Pablo López, o aventureiro desta carta viaja, trabalha e sonha, na ânsia de fazer florescer e fixar talentos em Azeméis. Um novo ciclo começou em agosto, mas o destino parece traçado.
“Daqui a um ano gostava de competir internacionalmente pela Oliveirense”, atira Pablo Cano.
Vamos à bola ao ar. Até já!
Aveiro, 24 de setembro de 2026

