Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026
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Do sintético do Outeiro ao histórico Paços: Azeméis não te esquece, Sacra

> Durante a última época acompanhámos, aqui no azeméis.net, com orgulho a caminhada do nosso 'Sacra'. Agora é protagonista desta Carta de Algibeira do Samuel Santos.

Há quase 20 anos, o anime “Oliver & Benji” deixava-nos colados ao ecrã e a sonhar com uma carreira no futebol. O capitão Tsubasa fazia-nos crer que qualquer adversidade era possível de superar – só bem mais tarde compreenderíamos a moral da série.

Ora, no pequeno relvado sintético da Escola Primária do Outeiro passaram inúmeros aspirantes a Tsubasa. Para a minha geração, o José Sacramento – hoje “Sacra”, outrora “Zézé” – foi essa figura. Era mais novo do que nós, mas embalava a equipa – colava a bola ao pé direito e enchia-se de coragem para correr, driblar e rematar. Era um miúdo energético, ambicioso, talhado para aquela arte e, por vezes, capaz de irritar a própria equipa – afinal, o intervalo era curto e a bola só uma.

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Desses “anos verdes”, para lá da má relação com a derrota, recordo uma criança humilde e que encontrava no futebol uma forma para se expressar e perseguir a felicidade. No baú tenho intacta a imagem de ele vestir fatos de treino que remetiam para as décadas de ‘80 e ‘90, em tons verdes, azuis e roxos. Eram peças descritas como antigas, mas hoje de novo moda e “retro”; e por isso desnecessariamente caras.

Depois de uma década sem o ver jogar, reencontrei-o em Cesar, no relvado do Mergulhão, numa pré-época da UD Oliveirense. Já não era o “Zézé”. Era o Sacra. Estava maior, mais largo, mais astuto e rápido. O que não tinha de altura compensava em combatividade. Para muitos – e para mim – era um produto da formação da UD Oliveirense prestes a mostrar-se na equipa principal. Mas não foi assim.

Antes do “salto”, este avançado passou por Cesarense, Estarreja, Beira-Mar e Águeda, entre futebol distrital e Campeonato de Portugal (4.ª divisão). Quando o sonho parecia escapar, fez “all-in” e aventurou-se pelo Benfica Castelo Branco, pela primeira vez longe do seio familiar – e lembro-me do quão próximo era da mãe, sempre na retaguarda.

Felizmente, o risco compensou, num excerto que parece tirado do “Oliver & Benji”. A solo no interior do país, Sacra fez 21 golos em 28 jogos e deixou Castelo Branco a sonhar com a subida à Liga 3. Não aconteceu, mas o avançado foi o melhor marcador do Campeonato de Portugal.

Estava claro que seria cobiçado na divisão acima, onde compete a Oliveirense, recém despromovida da II Liga. Mas o regresso fica para mais tarde, pois este oliveirense reforçou o histórico Paços de Ferreira, outrora na principal divisão e nas competições europeias. Os “Castores” da capital do móvel atravessam uma fase financeira delicada, mas sonham com o regresso aos campeonatos profissionais.

Só a época dirá se o Sacra regressa ao Carlos Osório na qualidade de adversário. Quiçá. Por certo seria aplaudido. Afinal, é o nosso “Zézé”. É muito especial quando o clube de qualquer cidade valoriza a própria formação e promove “a prata da casa”, como aconteceu com Pedro Ferreira, Duarte Silva, Serginho, Sérgio Silva, Manuel Godinho, Oliveira, José Barbosa, Renato Azevedo, Francisco Albergaria, Rui França ou Miguel Fonseca. A maioria não recebe esse privilégio, então é desafiada a agigantar-se, muitas vezes a solo e longe de casa.

O percurso do “Zézé” – para sempre aquele miúdo energético e com fome de golo – espelha a moral do “Oliver & Benji”, pois não haverá obstáculo maior do que o sonho. Nas noites geladas e chuvosas, quando o relvado pesar e se tornar lamacento, o avançado de 26 anos sentirá Azeméis a empurrá-lo.

Tudo começou há quase 20 anos. E é impossível esquecer.

12 de agosto de 2026, Parque de La-Salette

Samuel Santos
Author: Samuel Santos

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