A frondosa magnólia plantada pelos meus avós abraça o sol, deixa cair as últimas pétalas e fortalece as folhas, monopolizando as atenções sobre a fachada da casa. Revela-se verdejante e vibrante, aparentemente inabalável. Depois da dormência do inverno – contra intempéries e tempestades – os frágeis ramos foram pintados de rosa, anunciando a primavera em cada flor. A seu tempo também elas caíram, para que o ciclo prosseguisse. Sem ruído. É a natureza de uma árvore saudável.
Ao contrário da magnólia, os ciclos humanos decorrem em ritmos díspares, inconstantes e imprevisíveis, gerando desencontros e improváveis cruzamentos – algo tão mágico quanto o seu contrário. A viagem reveste-se de especificidades emocionais, sociais e contextuais, o que descarta receitas absolutas para a felicidade. Cada pessoa floresce ao seu ritmo, até que o rumo troque as pétalas por folhas, espelho de perseverança e amadurecimento.
Num processo que não se quer solitário, a visita de abelhas, vespas, melros, gralhas e demais enriquece e permite percecionar o próprio valor. E a renovação de ramos é indispensável, pois nenhuma espécie evolui quando amarrada a peso elementar.
Algo que gerou sentido no íntimo não desaparece no corte de velhos e secos ramos, pois corre na seiva e incorporou-se na raiz, o cerne da memória.
“Eu sei, nem tudo é mágoa,
É salto, é golpe de asa,
É flor, é fruto, é trégua,
É trova, é vento e passa”
Nesta procura pela primavera – nunca garantida, sempre efémera – o caminho também se pauta por silêncios e pausas, para que a seiva continue a contribuir para o grande jardim que habitamos. Não se trata de isolamento, mas antes resguardo, para que as pétalas deem lugar a firmes folhas.
“Há sempre paz noutro lugar, entre nuvens,
Um sítio onde podes perceber que há sempre alguém para te ver,
Em segredo, te descobrir e renovar”
Amadurecer contempla reflexões sobre a fé, pois – de quando em vez – a vida adulta reserva eventos desafiantes em catadupa, contrariando a fervorosa esperança da infância e da adolescência. Ora, aportar valor ao próprio e ao jardim é um processo de avanços e recuos, nem sempre intenso, mas o amor dita a consistência dos atos.
A existência é mágica, imprevisível, gratificante e dolorosa. Flor cai, folha nasce. As pessoas cruzam histórias, desencontram-se, reencontram-se ou desaparecem. As tempestades e travessias no deserto vão permitir alcançar porto-seguro e jardins verdejantes. Algo maior está guardado. A primavera aporta fé.
Santa Páscoa!
Santiago de Riba-Ul, 29 de março
Ao som de Tiago Bettencourt

