A incrível história de superação do gerente da JAR Moldes, Ricardo Pinheiro: da (quase) falência ao negócio de milhões

Teve dívidas de mais de um milhão e meio de euros, foi abandonado pelos sócios, chegou a não ter dinheiro sequer para colocar gasóleo no carro, e fornecedores a reclamar de pistola na mão à porta da empresa. Com persistência e o apoio incondicional da mulher deu a volta por cima. Em 2019 foi a segunda empresa de moldes do concelho que teve um maior crescimento de faturação. Admite estar cansado, e o futuro da empresa passa pelas decisões dos seus dois filhos.

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A JAR Moldes foi, no ano de 2019, a segunda empresa de moldes do concelho de Oliveira de Azeméis que mais cresceu no valor da faturação (+17,49%) e está na lista das 50 maiores empresas de moldes do país. Mas nem sempre a sorte sorriu a esta e empresa. Pela primeira vez em entrevista, Ricardo Pinheiro, sócio-gerente da empresa, revela todo o processo difícil pela qual a empresa passou até chegar ao sucesso. Esta é uma história, contada na primeira, que comprova que a vida de empresário não sempre fáceis, e que o sucesso não aparece de um momento para o lado. Mas também prova que também é possível um empresário passar da vergonha ao orgulho em meia dúzia de

O percurso da JAR Moldes, agora instalada em Cesar, começou em 1998. Nesse ano, Ricardo Pinheiro, e mais dois colegas de profissão, decidiram sair do Grupo Simoldes, onde trabalhavam, para fundir a JAR Moldes. O nome da empresa foi construído com base nas iniciais dos nomes dos três sócios – José, Alberto e Ricardo.

“A empresa começou com três sócios e uma máquina”, começa por contar o sócio-gerente da JAR Moldes. “Quando começamos a JAR Moldes não conhecíamos ninguém, não sabíamos nada no mercado. Sabíamos zero”, diz. E revela que o plano iniciar era fazer pequenos serviços: “Pensávamos fazer uns polimentos e uns arranjos para outras empresas”.

O salto para a construção de uma empresa era algo inevitável. Ricardo Pinheiro começou a trabalhar aos 16 anos no Grupo Simoldes, mas desde que se conhece que teve o objetivo de ser empresário. “Desde pequenino que o meu sonho era ser empresário. Sempre disse que ia trabalhar para mim. Nunca pensei que fosse em moldes. E eu quando estive na Simoldes, olhava para aquilo e pensava: ‘não é isto que eu vou seguir’. A Simoldes também é uma coisa fora do nornmal, e eu só pensava que nunca iria chegar aquele patamar”, comenta.

Entretanto, surgiu a oportunidade da criação da JAR Moldes com os três sócios. O início do projeto foi marcado por muitas dificuldades, como aconteceu com grande parte das empresas, e desde cedo que o caminho inicialmente pensado pelos três sócios foi alterado. Primeiro contratempo: ao final de um ano meio a sociedade ficou reduzida a dois elementos. “Um dos sócios saiu do projeto por opção. Ficamos só os dois”, recorda Ricardo Pinheiro. Ao fim de pouco tempo o plano de fazer apenas uns polimentos e arranjos para empresas da região teve de ser alterado, e o universo de clientes teve de ser um pouco mais alargado.

“Tive de fazer muitos quilómetros, muitas viagens, ir para sítios que não lembram a ninguém, tive de me meter a caminho. Comecei a contactar empresas de moldes, e as coisas foram evoluindo“, conta. A vontade de vencer no mercado era grade, e Ricardo Pinheiro foi ousado e persistente. Houve clientes, admite, que venceu pela exaustão. “Cheguei a fazer 800 km para estar a porta dos clientes. Alguns consegui que me recebessem, outros não me receberam”, recorda.

Empresa esteve quase na falência. Mais de €1,5 milhões de dívida

“Há oito ou nove anos”, situa Ricardo Pinheiro, a JAR Moldes atravessou o pior momento de toda a sua história. Foi um momento em que se dizia que empresa iria fechar, uma vez que tudo apontava que não havia maneira de a salvar. E foi nesse momento que o empresário ficou sozinho na liderança da empresa. “O meu sócio decidiu abandonar, e fiquei sozinho. Eu ainda disse ao meu sócio para continuar. Mas ele decidiu sair, e eu fiquei sozinho. E pensei: ‘enquanto tiver mãos isto não vai fechar'”, confidencia.

O cenário era bastante negro. “Quando fui abandonado, e fiquei sozinho a empresa, tinha uma dívida de 140 mil euros à Segurança Social, devia um milhão de euros a um banco, e meio milhão a fornecedores”, enumera. “Era uma vergonha na altura, mas agora, para mim, é um orgulho ter ultrapassado isto”, afirma.

Analisando todo o percurso, Ricardo Pinheiro afirma agora que ter ficado sozinho na empresa foi a melhor coisa que podia ter acontecido, uma vez que conseguiu trilhar um caminho de sucesso. “Não querendo ser nenhum herói, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido”, diz.

A JAR Moldes estava mal financeiramente, estava muito mal vista com fornecedores, clientes, e na rua, e o sócio-gerente tinha duas opções. “Ou fechava, ou fazia uma loucura”, refere. “A opção foi fazer uma loucura, porque também tinha uma pessoa ao meu lado, que é a minha atual esposa, que também me apoiou muito. Se ela não tivesse apoiado tanto se calhar não estaria aqui”, conta. “O caminho foi passarmos de uma empresa muito mal, buraco, que tinha dívidas a toda a gente, ninguém queria vender à JAR Moldes, porque a JAR Moldes era um cancro, e eu decidi cometer uma loucura, que agora se sabe que foi bem sucedida”, recorda.

A loucura referida por Ricardo Pinheiro foi investir 250 mil euros em novas instalações quando não tinha dinheiro… sequer para colocar gasóleo no carro. “Estávamos num buraco, tínhamos 15 empregados, e eu pensei:´vou arranjar um pavilhão maior, e vou buscar outros clientes, outro tipo de trabalho para ganhar dinheiro”, começa por contar. “Quando não tinha dinheiro para colocar gasóleo no carro, eu vim para estas instalações [em Cesar]. Só da mudança, e passagem de materiais, gastei 250 mil euros. Mas eu não tinha um dinheiro. E perguntei muitas vezes: o que vou fazer à minha vida. Porque além dos 250 mil euros, ainda tinha o resto, que era muito mais do que isto”, acrescenta.

Sangue, suor e lágrimas… sem nunca fugir

Foi a mudança para umas instalações maiores que proporcionou maiores negócios. “Chamei novos clientes e começamos a fazer projetos maiores. Até então fazíamos apenas projetos pequeninos”, revela Ricardo Pinheiro. O sucesso apareceu pouco tempo depois. “Como se dá a volta? Foi com muito suor, sangue e lágrimas, tive um apoio muito grande da minha esposa. Foi também alguém me pôs a mão, que eu não sei quem é. E tive sorte. (…) Neste investimento pus tudo o que tinha e não tinha, e o que eu tinha era o meu pescoço só, e o meu nome, felizmente todos acreditaram”, recorda.

Ricardo Pinheiro destaca aquilo que considera como uma virtude durante este seu percurso profissional. “Nunca fugi. Mesmo tendo os fornecedores à porta de pistola, eu nunca fugi”, revela. E a declaração do empresário não é em sentido figurado. “Tive mesmo fornecedores com pistola à minha espera”, reforça.

Na nova vida da empresa, o empresário também definiu as suas novas prioridades. No topo da lista continuam os trabalhadores [agora tem ao seu encargo 67 funcionários], com quem se orgulha nunca ter falhado durante os 23 anos de atividades, considerando que foi esta relação com os trabalhadores que também ajudaram a ultrapassar a fase difícil da empresa, o pagamento aos fornecedores passou a ter um critério diferente, e, acima de tudo, a empresa passou a não ter dívidas ao Estado. Uma das prioridades do empresário foi pagar a dívida de 140 mil euros à Segurança Social.

Foi com esta estratégia financeira que Ricardo Pinheiro começou a ver a luz ao fundo do túnel. Atualmente a vida económica da JAR Moldes está completamente diferente. Para melhor, claro. Passou a não precisar das entidades bancárias. “Hoje em dia tenho os bancos a lutarem entre si para me venderem dinheiro, o que no passado era uma situação impensável”, constata. A empresa está a estudar, para breve, um investimento de um milhão de euros numa nova máquina, e os bancos já se posicionaram para terem a primazia do empréstimo financeiro.

Ricardo Pinheiro conseguiu transformar uma empresa praticamente falida há “oito ou nove anos”, para uma empresa que lucra milhões nos dias de hoje. Os melhores resultados financeiros têm sido registados de há dois anos a esta parte. Mesmo sendo um ano marcado pela pandemia provocada pelo vírus Covid-19, “o ano de 2020 foi positivo”. Contudo, o empresário refere que “nada é garantido para o futuro”.

O futuro é dos filhos. “Estou cansado”, diz Ricardo Pinheiro

Ricardo Pinheiro é sócio-gerente da JAR Moldes, e tem os dois filhos como sócios. É pelos descendentes que passa o futuro da empresa, bem como a decisão de novos projetos. “Não tenho intenção de aumentar nada porque estou cansado. Temos uma pequena fábrica de injeção, e alguns projetos em vista. Já passei por tanto, chega de investimentos, estou cansado. Há um projeto feito para aumentar a fábrica em mais1500 metros, mas preciso descansar. Tenho dois filhos, e eles é que devem avançar”, conclui.

AZEMÉIS.NET é o jornal online de Oliveira de Azeméis (criado em agosto de 2019) pensado em promover o que de melhor se faz no concelho. É um projeto que olha para o território, e a nossa gente, pela positiva e que quer puxar pelo orgulho oliveirense. Procuraremos ser a pegada digital para demonstrar que Azeméis é realmente vida... e que somos vivos!

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