Editorial. Salvou-se o clube, perdeu-se a alma

    O despedimento de Pedro Miguel é injusto por tudo o que ele fez pela UD Oliveirense. Ele é um dos nossos. Sem este líder e timoneiro oliveirense, a equipa de futebol da UD Oliveirense passa a ser um negócio puro e duro, ausente de qualquer emoção.

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    A notícia do despedimento de Pedro Miguel desconcertou-me. Aliás, tal como ficaram a maioria dos adeptos que souberam desta triste notícia logo na manhã de terça-feira, dia 10. Não digo a totalidade dos adeptos porque já li em alguns lados que há quem pense que Pedro Miguel já estava tempo a mais na UD Oliveirense. Posso aceitar a opinião, porque vivemos todos em liberdade, mas não concordo.

    Foi com Pedro Miguel que os adeptos viveram nos tempos recentes as maiores alegrias do clube. Em 2007/2008 todos festejamos a subida à II Liga, entretanto foi-se embora para o Feirense e a UD Oliveirense desceu de divisão, e foi quando ele regressou na época 2016/2017 que voltamos todos a sonhar com a subida de divisão que mais uma vez se concretizou. Quem viveu estes momentos, estas emoções, não pode ficar indiferente a este momento.

    Ele é um de nós. Sente-se isso. Ele sempre foi um treinador-adepto. E é sócio. Ele sente o clube, e quer tanto o sucesso do clube como qualquer um de nós, enquanto adepto. Tenho a certeza. Mas também tenho a certeza que ele não faz omeletes sem ovos. Quer dizer, bem vistas as coisas, ainda é capaz de fazer meia omelete. Foi sempre dito que a equipa de futebol da UD Oliveirense tinha o orçamento mais baixo de toda a Segunda Liga, e não nos podemos esquecer que neste momento a competição neste campeonato é feroz, e há equipas que estão a investir pesado há várias épocas sem ainda ter conseguido atingir os objetivos propostos (o Chaves é um bom exemplo)

    Para mim, Pedro Miguel foi um herói nestas últimas cinco temporadas por tudo o que fez com as (poucas) condições que teve. O ato heróico ficou ainda mais vincado no início desta época. Aceitou orientar uma equipa que não foi escolhida por si, mas sim pela SAD, tal como confessou numa entrevista recente. E jogadores, vê-se agora, com dificuldades de adaptação ao futebol português. E mesmo assim a classificação mostrava que os objetivos públicos proposta o de manutenção na II Liga (e não de podia pedir mais do que isto) estavam a ser cumpridos. Pedro Miguel deixa o clube em 13.º lugar.

    A realidade é, por isso, injusta para Pedro Miguel. E tudo isto vai trazer consequências. A SAD fica assim cada vez mais longe dos adeptos. Dizimaram uma equipa no início da época, dispensaram quase todas as referências do clube (como é o caso do capitão Sérgio Silva), e agora despediram o treinador. Daqueles que sentimos como um dos nossos, resta-nos o Oliveira. Até ver…

    Com isto tudo, a sensação que tenho é que o clube foi salvo com os milhões que foram encaixados pela venda da equipa de futebol ao grupo de investidores japoneses (ficava ainda mais descansado se a presidência do clube confirmasse que as tranches já foram todas pagas), mas a alma oliveirense perdeu-se. Praticamente não há elementos identificativos das gentes de Oliveira de Azeméis na equipa.

    Sem este líder e timoneiro oliveirense, a equipa de futebol da UD Oliveirense passar a ser um negócio puro e duro, ausente de qualquer emoção. Mais importante do que os resultados desportivos, é a ligação de um clube à sua terra e às suas gentes. Aguardo pelos próximos tempos.

    Diretor do Azeméis.Net | Comecei o meu percurso de jornalista há mais de duas décadas em Oliveira de Azeméis. Tinha 16 anos e foi o jornal Correio de Azeméis que me acolheu. Em 2015 idealizei o projecto Azemeis.Net, e no início de 2019 comecei a fazer força para o seu arranque. Tenho orgulho oliveirense e quero mostrar neste cantinho virtual que há realmente vida em Azeméis.

    2 COMENTÁRIOS

    1. Fui com o Pedro Miguel, que fizemos história, conquistando um título, que nunca o Clube tinha conseguido na sua História. Campeão da Segunda Divisão, num jogo realizado em Pombal, onde vencemos o Covilhã, fomos com o Ribeirão, discutir a subida. Trabalhei com o Pedro, formamos uma equipa que com humildade, deu alegrias aos Oliveirenses. Tenho imensa honra de fazer parte dessa história. Um abraço. Amigo Pedro, sofremos mas valeu a pena. Um abraço

    2. Considero um “clube” aquilo que junta pessoas ligadas por um sentimento comum, à volta de um projeto que exalte o estado de espírito de “fair play” de todos e que dê bom nome à terra onde se situa. Assim era o União Desportiva Oliveirense durante décadas, com altos e baixos é certo, mas onde sempre imperou o “por amor à camisola”. Pedro Miguel sempre foi: (1º) um excelente ser humano (2º) um atleta que primou pelo “fair play” (3º) nos momentos de crise do UDO o homem que esteve presente a orientar o clube (4º) deu o melhor de si sem pensar em si mesmo, dando alegrias aos adeptos! Agora que o clube desapareceu para dar lugar ao que está na moda (SAD), o que resta não é mais que um negócio, onde aparecem interesses de pessoas que não tiveram de comprar uma máquina, i. e., campo de futebol onde podem dar largas aos seus entusiasmos de investidores. Será que o UDO, agora SAD, vai dar alegrias à cidade onde esse clube nasceu sob os auspícios da boa vontade e amor ao futebol dos bons velhos tempos? O futuro o dirá!

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