Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2026
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Aos Amigos Emigrados

> O jornalista Samuel Santos dedica esta sua crónica aos amigos emigrantes, que optaram por sair de Azeméis à procura de algo mais desafiante.

Termina o mês festivo, vira o ano e reorganiza-se a rotina. Malas aviadas, Azeméis para trás e a alma recarregada. Na bagagem levam postais, um pouco de mar e casa, ansiedade, esperança e a loucura que os enche de coragem. Deixar este tranquilo país à beira oceano será, por certo, exigente, reedificando processos sociais e descobrindo novos vértices do termo “saudade”. Uns perseguem sonhos, outros foram empurrados e alguns deram o “salto” a prazo.

Desta janela aceno a amigos de berço e de adolescência que optaram por rumar às mais variadas nações, confiantes de que vão encontrar algo mais desafiante, apaixonante e enriquecedor – não só financeiramente. Para milhares de jovens adultos não basta migrar, uma vez que o país continua reduzido – ou de portas encerradas – em determinados ofícios.

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“Aperte o cinto e siga as regras de segurança. Vamos descolar em breve”.

Espanha, França, Suécia, Países Baixos, Itália, Reino Unido, Bélgica, Eslovénia, Japão, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos. Estão todos na memória e à distância de uma mensagem. Sabem que não percorrem o trilho a solo. A todos enalteço a coragem. Abdicam do conforto na esperança de um amanhã melhor. Trabalham, investem e reforçam a fé no propósito.

Dezembro revelou-se fantástico para reencontrar muitos destes amigos, até fruto do acaso. Uns regressaram de vez, outros visitaram de fugida e há ainda quem ultime a primeira partida. Todos carregam vivências e ideias que espelham o antagónico momento de Portugal. Ora pacato e cómodo, mas deficitário e precário. O que relatam é importante para enriquecer a perspetiva de 360.º. E, também por isso, o seu regresso seria crucial para alavancar renovadas dinâmicas.

Daqueles reencontros retiro várias ilações. Primeiro, os amigos estão instalados, estáveis, bem de saúde e animados. Depois, a reconfirmação de que não existem países perfeitos – evidente, mas importa recordar. Escolho interpretar o nosso como capaz de ser limado, dotado de um potencial silenciado por egoístas e desconhecido por milhões. Mas não extrapolemos para a política. Por estes dias florescem politólogos como ervas daninhas.

Abraço os amigos emigrados e lembro-os em momentos aleatórios. Porque os estimo, porque tenho saudades. Um dia vão regressar – ou eventualmente vou visitá-los – para os escutar e beber das suas aprendizagens. Por cá, o essencial vai permanecer intacto. Que nunca caiam as pontes entre nós. Até já!

Santiago de Riba-Ul, 19 de janeiro de 2026
Carta escrita no rescaldo a uma valente gripe

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