A guerra da desinformação 

Opinião de Any Onofre, professora e ex-vereadora da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis.

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Anton Shekhovtsov, conselheiro do Ministro de Assuntos internos da Ucrânia e Diretor do Centro pela Integridade da Democracia é autor do livro «Russia and the Western Far Right».  Escritor objetivo e confiável, publicou alguns dados que serviram de mote a esta minha reflexão e nos devem esclarecer sobre o que é a desinformação.

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De acordo com este autor, os serviços de segurança ucranianos publicaram um relatório analítico do FSB russo (quadro de estabilidade financeira) relativo à invasão da Ucrânia.  Neste relatório destacam-se operações de influência de opinião russas relativas à Europa, com o intuito de desinformar, destabilizar e causar fraturas sociais. Na verdade, uma técnica muito querida e desde sempre usada pela propaganda russa. Neste relatório russo dirigido ao Kremlin, as recomendações propostas para semear a discórdia no futuro próximo são as seguintes que passo a citar, traduzindo:

1 Lançar um pacote massivo de desinformação de factos e previsões sobre o declínio da qualidade de vida dos membros dos países da União Europeia e políticas dos seus governos, enquanto apoiantes de grupos nacionalistas.

2 Provocar pressão social interna nos governos e elites políticas dos países ocidentais, por forma a gerar uma opinião negativa dos cidadãos dos países europeus no que toca à política dos seus governos em relação à Rússia.

3 Argumentar e insistir no ponto do declínio, a longo prazo, da qualidade de vida dos europeus, devido ao armamento da Ucrânia a custo dos impostos pagos por cidadãos europeus, acompanhados da perda de programas sociais para os mais desfavorecidos e o empobrecimento na União Europeia.

4 Convencer que os refugiados ucranianos estão a colocar pressão nos orçamentos de Estado e nas infraestruturas socioeconómicas da EU, que já suporta muitos refugidos do Médio Oriente e Afeganistão.

5 insistir na dificuldade que as pessoas estão a sentir no que toca ao fornecimento de energias.

E a narrativa preferida de manipulação do Kremlin:

6 Publicitar informação sobre neonazis na Europa e comparar estes com o que a Rússia divulga como neonazis na Ucrânia, questionando os Europeus sobre tolerância com estes últimos quando tentam banir os nazis e neonazis dos seus países e governos.

Como tenho dito desde o início deste dramático conflito na Ucrânia, sou uma obsessiva   defensora da paz e dos direitos humanos, pelo que, inequivocamente, estou do lado dos Ucranianos na sua legítima luta pela sua independência e restauração da paz face a um estado invasor, brutal e sem escrúpulos que descarada e impunemente continua a matar, a torturar e a roubar dizendo que não o faz. As guerras são sempre um polvo com muitos tentáculos e nenhum deles recomendável.

 Assim, a guerra de sangue e chacina, tem em paralelo a guerra escura do submundo da política, da alta fiança, dos interesses de uns e de outros. Há a guerra dos governos através da espionagem e dos hackers, que via internet fazem estragos e invadem, violam e destroem, há a guerra da desinformação e mentira, para tapar os olhos à verdade, há a guerra dos interesses pessoais ou locais, como a exigência da Turquia em entregar refugiados Curdos, ditos «terroristas» , para aceitar a integração da Suécia e Finlândia na NATO, a guerra indecente da fome, com a pilhagem e sabotagem da circulação dos cereais a partir da Ucrânia, por parte do regime russo. Há mil guerras tão feias e dementes, numa só guerra, que parece que o mundo perdeu a rota e entrou em colisão consigo mesmo.

Não gosto deste mundo atual. Não gosto da forma como é governado, como se alguns (muitos) governantes tivessem o direito moral de decidir sobre o destino de todos, com total impunidade e gabarolice. Não gosto de pensar que em muitos lugares do mundo há pessoas que nunca terão acesso a uma educação em liberdade, a um pensamento livre, a direitos iguais. Pessoas que, fruto de propaganda e «reeducação» para uma certa linha de pensamento, são levadas a pensar, agir e escolher baseados em premissas alteradas e incorretas. Um rebanho sem pastor, a caminho do matadouro, sem a mínima noção disso!

Nunca, como hoje, me tinha debruçado tanto sobre notícias, jornais, artigos, social media           (Twitter, pois Facebook e Instagram são a linha cor-de-rosa da vida e não há grande tolerância para assuntos «chatos», que perturbam ou nos tiram o sono), na procura de ouvir opiniões diferentes, esclarecidas e avalizadas. E é na diversidade de todo esse manancial de notícias nacionais e internacionais que percebi como é essencial nunca nos conformarmos, calarmos ou deixarmos enganar pela desinformação.

Vou ser clara: sem termos a versão nua e crua, até dolorosa, de todos os ângulos, de um assunto polémico, como a guerra, a política, a visão dos estados que governam o mundo, podemos viver numa santa ignorância, mas é uma paz podre. Mesmo correndo o risco de não sermos ouvidos pela maioria, temos de ter a ousadia de partilhar conhecimento, denunciar, gritar o que achamos certo ou errado, ou quem «manda» fará ainda pior do que já faz.

Quem não se esclarece compra toda a mentira e propaganda, como a acima denunciada, sem discutir. Entra no rebanho manso dos apáticos que se preocupam com a sua vidinha e para eles está sempre tudo bem, desde que não lhes mexam nos bolsos nem lhes tirem o sono, que acabam, na mesma, por perder sem saberem como.

Curiosamente são os primeiros a ficar indignados com tudo, a criticar, a espernear quando lhes rebenta uma crise na cara, mas até à evidência inegável, o tempo de se informarem, oporem ou protestarem, ou fazerem ouvir a sua voz, passou. Quem não vota em eleições, quem se abstém de tudo, quem quer lá saber do que fazem os governantes no nosso, muito mais nos outros países, quem não se indigna com a fome no mundo, com atos de violência gratuita, com a opressão dos povos, com ideias xenófobas, discriminatórias, opressoras, na verdade consente. Quem cala, consente!

É com isso que contram o grandes predadores, como Putin, por exemplo (este toda a gente conhece, a bem ou a mal). É com esse «cordeirismo» militante que os estados totalitários contam para manobrar, disciplinar, distorcer, tapar o sol da verdade com a peneira e manipular milhões de pessoas com desinformação … e o pior é que conseguem, porque não encontram oposição.  Paulo Francis escreveu «A ignorância é a maior multinacional do mundo» e eu acrescento: e rende milhões a quem sabe como a explorar!

Podemos viver num país pobre, cheio de falhas, com muita coisa a concertar, mas temos liberdade de expressão. Podemos dizer o que nos vai na alma, podemos escolher quem nos governa, podemos dizer que não concordamos com tudo e mais alguma coisa. E o mesmo se passa na maioria dos países da nossa querida e decadente Europa. É nisso que partidos de extrema-direita ou esquerda, aliás, se baseiam para usar demagogia e dizerem o que as pessoas querem ouvir. No entanto, quem está esclarecido, filtra. Ouve e separa o trigo do joio. Mas tem de querer saber o que é um e outro. Tem de se informar quando é desinformado. E tem de ter uma posição.

Assim, caros leitores, mesmo sendo chata e insistente, sinto que tenho de o afirmar sempre e sempre: se temos voz, é para a usar. Como é que não a usamos, quando tantos milhares de pessoas no mundo são torturados aniquilados e mortos por ousarem fazê-lo? Não sei o que pensa quem conseguiu ler o que escrevi até agora, mas creio que irão concordar comigo neste ponto:  os valores universais que foram conquista de muitos séculos, como a liberdade, a democracia, os direitos humanos e a paz, valem todos os esforços, porque foram conquistados com sangue, suor e lágrimas ao longo dos séculos.

Continuam a ser conquistados assim, com brutal sofrimento por muitos, ou a Ucrânia, entre muitos outros países, não estaria agora a enfrentar um inferno, no qual quem está informado se revê, para reconquistar o direito à liberdade e à paz.  Não uma paz podre. Manobrada, mal-informada, de cordeiros sem pastor, opaca e até desinteressada, mas uma paz com alicerces, com a união de milhões de vozes que gritam em uníssono e convictamente e conseguem assim calar quem a quer aniquilar. Só assim se vence uma guerra, mesmo que se percam muitas, muitas batalhas para lá chegar…

AZEMÉIS.NET é o jornal online de Oliveira de Azeméis (criado em agosto de 2019) pensado em promover o que de melhor se faz no concelho. É um projeto que olha para o território, e a nossa gente, pela positiva e que quer puxar pelo orgulho oliveirense. Procuraremos ser a pegada digital para demonstrar que Azeméis é realmente vida... e que somos vivos!

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