Sábado, 3 de Dezembro de 2022
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O Rei vai nu!

Opinião de Any Onofre, professora e ex-vereadora da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis.
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Ando há uns tempos com esta fábula infantil a martelar-me a cabeça: «O Rei vai nu!». Depois explicarei a razão, mas primeiro vamos ver se todos se lembram desta pequena estória que é um tratado de sabedoria.

«Era uma vez um rei muito vaidoso, que gostava de andar muito bem arranjado.

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Um dia vieram ter com ele dois aldrabões que lhe disseram:

– Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido – bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver.

Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte.

– Oh! Mas é uma descoberta espantosa! – Respondeu o rei. Tragam já esse tecido e façam-me o fato; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.

Os dois aldrabões tiraram as medidas e, daí a umas semanas, apresentaram-se ao rei dizendo:

– Aqui está o fato de Vossa Majestade.

O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu:

– Oh! Como é belo!

Então os dois aldrabões fizeram de conta que estavam a vestir o fato, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas:

– Ficais tão elegante! Todos vos invejarão!

Como ninguém da corte queria passar por tolo, todos diziam que o fato era uma verdadeira maravilha. O rei até parecia um deus!

A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um fato que só os inteligentes eram capazes de ver.

Um dia o rei resolveu sair para se mostrar ao povo. Toda a gente admirava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:

– Olha, olha! O rei vai nu!

Foi um espanto! Gargalhada geral. Só então o rei compreendeu que fora enganado; então envergonhado, humilhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.

( Planeta Editora )

Ora onde quero eu chegar? Analisemos. Quem é o rei, quem são os aldrabões (charlatões), quem é o povo e quem é a criança? O rei simboliza todos os poderosos corrompidos pelo poder, geralmente vaidosos, com a noção distorcida de se sentirem deuses, com direito a tudo, até a serem criminosos, terroristas, sacanas disfarçados de reis. São os magnatas, oligarcas, políticos poderosos, corruptos, inúmeras pessoas, no geral, que de forma transversal e mundial perderam a noção mais importante da vida: a humildade e a noção de finitude. O respeito pelo outro. A verdadeira dimensão do que é ser humano. O equilíbrio. E há tantos, ui, como há tantos, em todo o lado!   

O seu ponto fraco é essa vaidade, essa noção de impunidade que acaba por os tramar. São incapazes de reconhecer as suas falhas, imputam-nos em terceiros, são narcisistas, mentirosos, manipuladores e muitas vezes sociopatas. Gostam de fausto, de uma riqueza e estilo de vida quase insultuosos para os que passam fome, os pobres, os esquecidos da sociedade, que na verdade desprezam.

Quem são os aldrabões? São os oportunistas que cercam o «rei». Os «yes-men», os que fazem de tudo para idolatrar até as maiores idiotices do líder. Esteja ele certo ou errado, não se pode confrontar ou irritar o rei. E deixam, permitem tudo, até o intolerável. São corresponsáveis por muitos dos crimes, das loucuras do rei nu.  São os apoiantes «cegos» que mesmo perante a realidade, os factos, a inequívoca verdade, preferem adotar a mentira para não se darem mal. Mas todos têm um preço: no fundo querem o seu quinhão de poder ou riqueza. Quem não os conhece, na política, nas finanças, nas empresas?  Podem até tramar o rei…e tramam, eventualmente. Mas só se lhes der jeito…

Quem é o povo? Somos nós. Os que podem escolher. Ou ser carneirinhos no rebanho, ou a voz que destrona o rei. Somos carneirinhos quando somos seres humanos demitidos, preocupados com o nosso pequeno quintal, boas pessoas, mas que «não querem problemas com ninguém». Queremos que nos deixem em paz. Não queremos ser perturbados por problemas que não são nossos e não podemos resolver. Não gostamos que nos invadam com más notícias e preferimos fingir ver o rei vestido com um fato majestoso, mesmo que invisível. O povo, infelizmente, na maioria das vezes, é o mar que se esquece que pode ser um tsunami e que tem ondas, que tem poder, que tem, se unido, todo o poder de causar mudanças.

Quem é o povo? Somos nós. Os que podem escolher. Ou ser carneirinhos no rebanho, ou a voz que destrona o rei.

Quem é a criança?  Na sua inocência, na sua verdade, na sua voz que não se cala, são os que não temem dizer que o «rei vai nu», não para o gozar, não por maldade, mas porque ousam, sem medo, dizer sempre o que lhes vai na alma. São sempre uma voz que não se cala. São até incómodos, porque insistem em dizer o que ninguém se atreve a pensar. São as vozes no mundo que desafiam os reis sacanas e vaidosos. São os que preferem morrer do que vender a alma ao diabo. Aliás não se vendem. Não se dobram. Não são corrompíveis. São de um poder desarmante, como os jornalistas, os voluntários no mundo, os defensores da paz, os que combatem regimes déspotas, os que desafiam e denunciam e querem lá saber se o rei os separa dos inteligentes e os considera «tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a sua corte». Sem eles a humanidade estaria perdida…são eles a minha única esperança no bem. 

E concluo dizendo. Se o povo, em países, organizações, governos, onde grassa a total corrupção, desrespeito pelos direitos humanos, prepotência, opressão, se unissem e gritassem em conjunto «o rei vai nu!», não haveria «aldrabões», nem «reis nus» que os pudessem calar. Poderiam derrubar os maiores dinossauros que controlam o mundo e o destroem. Poderiam repor a verdade. Poderiam mudar tudo. Unidos. Sem cobardia. Sem medo de não parecer inteligentes ou sensatos e de apontar o dedo ao rei nu.  

O mundo está cheio de reis nus. Cada um pode escolher a posição que quiser…pode mesmo, mas a minha humilde opinião é que se queremos que o mundo tenha paz, se queremos que os reis nus sejam desmascarados, não podemos ter medo de gritar bem alto que eles são isso mesmo: reis nus. Sem medo da sua reação, sem receio de os humilhar e irritar com a verdade e a justiça. Custe o que custar. Ou estaremos a compactuar com o intolerável. E mais não digo pois para bom entendedor meia palavra basta e o que se passa no mundo, hoje, aos olhos de todos é bem prova disso…

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