Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026
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No Torreão mora uma clínica SimplesMente única

> Há lugares que guardam história. E há projetos que lhes dão uma nova vida. Samuel Santos conta a história da SimplesMente, da sua fundadora e de um caminho feito de ciência, cuidado e ligação à terra.

«Em Cucujães há dois ícones: o Mosteiro de São Martinho e a Casa do Torreão.»

Na vila, a primeira tarde de setembro cai com sol, sem pressa, sem ruído. Junto ao busto da benemérita Clementina Libânia Pinto Leite, a famosa Condessa de Penha Longa (nascida a 6 de setembro de 1840 e falecida a 17 de setembro de 1921), observo – ao longe e sem obstáculos – o Mosteiro de São Martinho, fundado no século IX e responsável pelo estatuto de “Couto”.

Há mais de 887 anos, D. Afonso Henriques entregou o território ao mosteiro e conferiu autonomia face ao poder régio. Por isso, a essência de independência que prevalece na vila é só natural. A partir de julho de 1139, a tradição agrícola, artesanal e senhorial desenvolveu-se em Cucujães, enquanto famílias poderosas instalaram-se. Ainda que a evolução tenha obrigado o mosteiro a ceder a maioria dos terrenos, outros protagonistas edificaram quintas, palácios e mansões – como os Pinto Leite.

Até que surgiu a Casa do Torreão, no princípio do século XVIII, distinta pela torre protagonista em contos infantis e pelo enorme jardim. Depois de décadas a receber casamentos, eventos privados e excursões de todo o país, o Torreão abraçou a SimplesMente, centro clínico de reabilitação especializado no envelhecimento e em patologias cerebrais.

O projeto da cucujanense Sandra Freitas – fundado em 2020 – quer revolucionar o cuidado multidisciplinar, contando com fisioterapeutas, psicólogas, neuropsicólogas, uma terapeuta da fala, uma podologista e, claro, os indispensáveis auxiliares. E quis o destino que a fundadora da SimplesMente regressasse à amada vila no verão de 2026. Ora, a missão de Sandra começou há décadas e acumula milhares de quilómetros.

«Há um sítio onde a estrada te deixou; por onde tens de ir se te queres libertar.» Tiago Bettencourt, “Caminho de Voltar”

Do Couto para Coimbra e Salamanca

Na nova sede da SimplesMente, Sandra vislumbra o lar onde foi feliz com a mãe, Olga Vidinha, e é no jardim do Torreão que recorda a precoce sensibilidade à “angústia do cuidador”, além da paixão por fisioterapia, psicologia e pelo cérebro humano. Entre descobertas da adolescência, Sandra uniu amores com Hélio, fiel conselheiro e companheiro para a vida.

Na viragem do século, a cucujanense deixou a vila para ingressar na Licenciatura em Psicologia na Universidade de Coimbra, mas já de olho na neuropsicologia, “novíssimo” ramo que explorou no doutoramento realizado em Salamanca. Sedenta de desafios, regressou a Coimbra e despontou em Portugal pela mão de Mário R. Simões, “mestre da avaliação neuropsicológica”.

Seguiram-se dois pós-doutoramentos.

“Avaliei mais de 2000 pessoas em Portugal, incluindo Madeira e São Miguel. Foi gratificante. Achava que seria docente para o resto da vida”. Para lá da peugada deixada em Coimbra, Covilhã e Lisboa, Sandra redescobriu-se em 2018, quando perdeu a mãe pouco depois de ver nascer a segunda filha. “Tinha tantas instituições para entregar a minha mãe, mas sabia que a abordagem nunca seria centrada no que ela precisava. Esse foi o ponto de viragem.”

Esboço, covid-19 e a SimplesMente

Às portas da pandemia, Sandra Freitas arriscou repensar o cuidado prestado ao utente na Associação de Melhoramentos Pró-Outeiro. Ainda que o «projeto pioneiro» tenha sido interrompido abruptamente, o rastilho permitiu fundar a SimplesMente no verão de 2020.

Para lá de mudanças de morada – Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira e São João da Madeira – a clínica de reabilitação cresceu em utentes, espaço e valias. Em todo o caso, Sandra esclarece que a SimplesMente não é um lar ou um centro de dia.

“Trabalhamos para o doente, mas não só. Os utentes podem cá vir para uma consulta de fisioterapia, por exemplo. Basta querer estar acompanhado, ter um dia preenchido e sentir-se estimulado. Queremos manter a mente ativa e estimulada, trabalhar o corpo, valorizar a vida em sociedade e ressignificar o envelhecimento, algo muito bonito”.

“A medicação serve apenas de controlo sintomático, o que verdadeiramente pode ajudar são as estratégias terapêuticas”.

E o jardim do Torreão vai enriquecer a missão, uma vez que Sandra planeia a criação de um jardim sensorial, com estímulos visuais, táteis, olfativos, auditivos e até gustativos, por agora à boleia de fisálias e maracujás. Apenas o ponto de partida, pois o potencial daquele jardim secular é impressionante, até no silêncio.

Em redor estão salões transformados para reabilitação física, arteterapia, consultas, refeições, convívios, visitas, e, claro, reuniões da “cúpula” – a equipa multigénero e multidisciplinar está a par de cada caso, “sempre com as expectativas no lugar certo”.

“Os utentes são pessoas para lá do diagnóstico”

Neste verão, a SimplesMente juntou-se à comunidade, por exemplo, à beira-mar. Nesses momentos, os utentes comunicaram, recordaram, analisaram opções de lanche, fizeram escolhas, entregaram as moedas e verificaram o respetivo troco. A seu tempo, sem pressas.

“Para eles é brutalmente gratificante e reconstrutor da identidade. Quem chega à SimplesMente merece continuar a ter uma vida rica. Há momentos de partilha brutais. Partilha emocional, social e de memória, do eu que ainda existe e que deve ser respeitado. Os utentes são pessoas para lá do diagnóstico”.

A caminhar para o sétimo ano e para a inauguração do renovado espaço no Torreão, a SimplesMente é referência para lá do concelho, ecoando no Porto e em Lisboa – esta semana foi destacada na Fundação Calouste Gulbenkian. Afinal, à frente do projeto está a consultora da Rede Nacional de Cuidados Continuados, uma académica distinta, uma cidadã sensível e uma cucujanense tenaz – a extensão do legado de Olga Vidinha.

“É muito especial regressar a Cucujães. A Olga está cá e trago um bocadinho do que ela queria para a vila. Ela fazia parte da Junta de Freguesia e sempre se envolveu na cultura e no desporto”.

A SimplesMente tem os contactos associados nas redes sociais e está de portas abertas. A missão passa por cuidar, amar, dignificar e prestar serviço público. Bemhaja. E coragem!

8 de setembro de 2026, Santiago de Riba-Ul

Azemeis.net
Author: Azemeis.net

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