Sexta-feira, 26 de Junho de 2026
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Plantar esperança e colher amor: a missão de João e Liliana

> A solidariedade oliveirense está espalhada pelo mundo. O jornalista Samuel Santos relata a missão de João e Liliana em Cabo Verde.
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«Tatuei o termo crioulo “Morabeza”»

De Cesar ao Tarrafal, João e Liliana, de 26 e 27 anos, preparam o regresso a Cabo Verde, onde iniciaram «uma missão» em fevereiro. Ela há muito guardava o sonho de ser confrontada por uma realidade distante e díspar; já ele bebeu da ambição, assumiu o sonho e ajudou à concretização. Ora, o casal juntou-se a uma associação multinacional e embarcou em vertentes diferentes. Ela – enfermeira – abraçou o projeto de educação social. Ele – administrador de compras e treinador de futebol na formação da Oliveirense – apostou na frente desportiva.

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«Organizámos uma onda solidária. Na paróquia de Cesar foi doado material escolar e desportivo, e recebemos donativos monetários que nos permitiram comprar mais malas e mais lugares de bagagem do avião. A Oliveirense deu equipamentos e os pais contribuíram com bolas, chuteiras, coletes e outros materiais de treino. A onda solidária foi muito superior ao que esperávamos.»

No café central de Azeméis, o relato de João recua ao primeiro choque: quase 60 crianças e adolescentes a jogarem descalços num campo de cimento com vidros e sem redes. É naquele duro retângulo que se refugia a esperança. E enquanto frequentam os treinos – antes e depois da escola – os miúdos fintam contextos de delinquência e alcoolismo.

«Às seis da manhã muitos estão prontos a treinar. É a altura mais fresca. Em fevereiro já estavam 30.ºC. Fui compreendendo que dois irmãos chegavam atrasados porque a mãe só os deixava sair depois de terminarem o trabalho no campo. Eles acordavam às três de manhã.»

«Os equipamentos da Oliveirense marcaram particularmente aquelas crianças e jovens, era como se fosse a pele deles. O coordenador do projeto teve de levar os equipamentos para casa. Caso contrário, os miúdos vestiriam as camisolas todos os dias.»

Entretanto, numa das escolas do Tarrafal, Liliana também sentiu vários “murros no estômago”: crianças a comerem iogurtes do chão ou pais que só levam o lanche matinal aos filhos depois de várias horas de labor. Todavia, garante o casal, o contexto não «belisca a felicidade» dos cabo-verdianos, povo que não se qualifica como “vítima”. Muito pelo contrário. Agarram-se à realidade e à esperança de um amanhã melhor para as novas gerações.

Ali – da forma mais verdadeira – a fé comanda a vida.

Duas semanas volvidas, João e Liliana regressaram com a bagagem emocional a transbordar e a missão (parcialmente) cumprida, pelo que vão regressar ao Tarrafal em junho. Investiram dias de férias e avançam de forma autónoma, sem amarras.

Março, abril, maio, junho. Os meses e a distância não fragilizaram os elos. Os miúdos continuam a perguntar pela Oliveirense e o contacto não esmoreceu. Para João há um termo que resume a aventura.

«O povo de Cabo Verde é acolhedor e humilde. Tratam-te como família. “Morabeza” aproxima-se de saudade, bondade e família. Foi um termo crioulo que me marcou e que tatuei. A nossa ideia é sermos solidários em qualquer lugar. Mas não é fácil. Em países desenvolvidos como Portugal, é muito fácil mergulhar na espiral de toxicidade e de negativismo, em ambientes demasiado competitivos. Esquecemos o quanto temos e o quão privilegiados somos.»

O casal sabe que a onda solidária de fevereiro não resolveu todos os problemas. Longe disso. Mas há sementes que florescem, pela força do amor. Cá e lá.

Mais de quatro horas de voo separam Oliveira de Azeméis do Tarrafal. Outrora tormenta de milhões, João e Liliana plantaram a esperança, prepararam ondas solidárias e levaram o código postal de Azeméis além-oceano. Não almejam condecorações. São dois corações simples. Gente de carácter. Como eles, dezenas de oliveirenses trabalham no silêncio e em prol do bem-comum, em diferentes latitudes.

São conterrâneos que me orgulham. A todos vós: bem-haja.

“Morabeza”

Santiago de Riba-Ul, 20 de maio de 2026

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