«Não me deixes sozinho nesta cidade…»
A serenidade do Parque de La Salette, nestes meses pintado de verde, vermelho e laranja, convida a saborear a paisagem nos miradouros, um dos quais acima da estalagem decrépita. Observar a degradação daquele ícone é uma espada trespassada no coração de milhares de oliveirenses. Foi na Estalagem de S. Miguel que assisti a um memorável concerto dos Paradigma – há 12 anos – numa noite fria de abril, quando o primeiro trabalho discográfico – “Perdidos no Tempo” – fazia furor e ecoava pelo país.
Os ritmos acelerados e as letras disruptivas saltitavam na mente desde 2013, quando descobri o projeto de Miguel Araújo, Samuel Oliveira e João Monteiro.
Se o último conheci no saudoso infantário “O Pinto”, o baterista conheci no Karaté, antes de imaginar que era artista. Apenas o vocalista conheci por via dos Paradigma, detentor de um timbre distinto e de uma postura revolucionária. Ao trio juntava-se regularmente o “pequeno” Afonso Oliveira – o único cabelo liso – cuja figura franzina não permitia adivinhar a caixa torácica que revelava nos enormes solos de saxofone. Também ele – que mais tarde viria a integrar a banda em definitivo – estava talhado para a alta roda do rock/indie e música alternativa lusa.
Os cabelos cresceram tanto quanto o nome Paradigma, surgindo em programas de entretenimento, concursos e festivais. De Azeméis a Lisboa, do Porto a Corroios, os temas contagiantes também voaram pela diáspora.
Eram caso único em Oliveira de Azeméis. E inspiraram outros.
Não estarei a exagerar ao escrever que os Paradigma inspiraram e fizeram sonhar várias gerações. Se para uns foram trilha sonora de noites de amor, para outros foram companhia nas viagens de verão. E derreteram muitos corações.
A mim serviram de combustível para acreditar nos sonhos, para viver intensamente, até quando se mira a alegada utopia.
“Mas se a vida é um instante, porque não hei eu de arriscar?”
A adolescência esvaiu-se e a juventude decorre intensamente. De Azeméis para Coimbra – onde nos cruzámos – até rumos distintos se imporem.
O Samuel – baterista – emigrou para o Reino Unido e integrou diferentes projetos. Chegou a trazer os Hello Amnesia à Noite Branca de Azeméis. E que bonito foi!
Os Paradigma seguiram, nunca se esquecendo dele. Este elo está-lhes na alma.
“E ela sonha com a igualdade,
Diz ter em mente um processo revolucionário”
A realidade preconizada há uma década tornou-se inegável. Os temas nunca foram tão pertinentes. Arrisco aproximá-los à essência de Ornatos Violeta, Linda Martini, Clã, Diabo na Cruz, UHF, Zeca Afonso, Sérgio Godinho ou Jorge Palma.
Há uma semana vislumbrei o Miguel Araújo numa manifestação no Porto, a propósito da crise da habitação. Antes da abjeta, violenta e desproporcional carga policial, o Miguel entoou cânticos de intervenção, abraçado pelas centenas que o admiravam. Certamente, a mãe, os irmãos e as estrelas que o guardam ficaram muitíssimo orgulhos.
Todavia, por cá, na cidade que se amarra ao passado, muitos criticaram o artista.
Sim, cometi o erro de ler muitos comentários insultuosos nas redes. Até à frustração não me caber no peito. Vi-me obrigado a escrever um comentário – raríssimo.
“Os comentários de ódio (quiçá inveja) que vão nesta caixa são sintomáticos do egoísmo que cega o concelho de Oliveira de Azeméis. Cada um olha pelo seu umbigo. Se o meu está garantido, por que motivo tenho de olhar às preocupações dos outros? Acorda, Azeméis. Para ontem. É muito mais do que sobre o Porto e Lisboa. Em frente, amigo Miguel Araújo. Continuas a ser luz pela tua voz e garra. Unidos seremos algo melhor.”
É muito mais fácil protestar no sofá e deixar a luta para os outros, vivendo resignado e em hipocrisia. É mais fácil viver cego e manipulado. Há demasiados conterrâneos, doutores, engravatados, políticos e empresários amarrados ao egoísmo, à ganância e à ignorância. Felizmente, neste concelho, há milhares – de todas as gerações – que almejam algo melhor para qualquer cidadão.
“Vai cantando ao poeta liberdade…!”
Os Paradigma ensinaram-me e inspiraram-me. E não os esqueço. O Miguel, o João, o Samuel e o Afonso. São imensas as saudades de os quatro em palco. Agitaram Azeméis e não vão sair da nossa história. O concelho deve ter orgulho.
“Não me deixes sozinho nesta cidade…”
E a caminhada prossegue. Por algo muito maior. Unidos. Cantemos!
Santiago de Riba-Ul, 30 de outubro de 2026
