Terça-feira, 3 de Março de 2026
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Com luzes m’enganas

> O jornalista Samuel Santos fala sobre o Natal e tudo o que acontece em redor desta época que mais parece um "cessar-fogo". E deixa ainda um pensamento: abdicaria do investimento em iluminações em prol de famílias carenciadas.

Na tela azul e amarela que ilumina o centro citadino irrompe um cone metálico, no qual corajosos homens se penduram para ultimar uma das atrações natalícias de Azeméis. São anónimos que permanecem nessa condição aquando da pomposa inauguração, com um botão e as mais mediáticas figuras do concelho. Há que puxar o lustre e encontrar o melhor lugar para a ocasião que promete reunir milhares, num quadro – infelizmente – raro no coração da cidade. Ora, premir aquele botão faz muito mais do que acender aliciantes lâmpadas: reitera a mentirosa lengalenga anual em torno de dezembro.

Do marketing agressivo à narrativa de que oferecer algo é imperativo, as luzes alinham nesta dinâmica consumista e hipócrita, como se a sociedade decretasse “cessar-fogo” em dezembro, a fim de maquilhar atitudes e remendar elos, enquanto o ego se acomoda e engorda. E em janeiro? O cone metálico é desmontado, as decorações deixam o Parque de La-Salette – esquecido até maio ou junho – as Farturas Couto dizem “Até já!”, deixa de ecoar música em Azeméis e regressa o quotidiano, os remorsos, as quezílias, os recados, as mesquinhices e as disputas. Em suma, termina o “cessar-fogo”.

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Não me julguem “Grinch” – figura felpuda e alérgica ao Natal – pois adoro esta quadra e a bondade que, afinal, emana na humanidade. Todavia, abdicaria do investimento em iluminações em prol de famílias carenciadas, de conterrâneos em situação de risco, ou em prol de projetos sociais e culturais que merecem continuar ou encontrar lar em Azeméis. Mas premir um botão e ligar uma tomada, à partida, exige menor esforço, implica menos reuniões e não obriga a saídas do gabinete. Ou seja, a política de proximidade continua inexistente, mas oportuna nesta altura do ano.

Independentemente de ideais, cores políticas, antecedentes profissionais ou formas de comunicar, no centro desta equação deveria estar o tão aclamado “espírito natalício”, a bondade “per se”, a mais genuína forma de expressão de estima pelo outro. O que é o Natal sem amor, refém de propósitos elementares e hipócritas?

Esta não é uma carta sobre iluminações ou política, não é só sobre dezembro. É sobre quem somos e o que representamos para quem se cruza na viagem. Por vezes somos meras luzes intermitentes, até para quem nos é próximo, confundindo rotas. Nesta senda de antecipar a quadra, faço votos para que iluminemos todos os lugares, junto de amados, amigos e (des)conhecidos. Quando nos faltar a luz, que não nos falte a companhia, pois quem semeia luz nunca ficará às escuras.

Encontramo-nos no coração de Azeméis, junto ao cone metálico iluminado. Até já!

Santiago de Riba-Ul, 27 de dezembro de 2025,
Escrito ao som de “You Get What You Give”, dos New Radicals

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2 respostas

  1. Samuel, esta carta deixou-me “no meio da ponte” talvez um pouquinho mais que o meio. Sem dúvida que esta época de Natal não deveria ser o que é – consumo e mais consumo, mas, apesar de concordar por inteiro com o espírito da carta, há alguma coisa em mim que pede a materialização do Natal – luz.
    Um beijo de gratidão pela mensagem.

  2. Caro conterraneo santiaguense: gosto muito sempre de ler os seus escritos e tenho acompanhado sem nos conhecemos mas desta vez não pois foi dos que me deram uma arma num já distante 24 de dezembro de 1971 na Guiné Bissau e por isso sei bem o que é ter alguma coisa que nos possa confortar nessa data tão querida para nós católicos e nem que seja uma simples árvore 🌲 iluminada na praça da rua ou da terra na porta da igreja, mas se não é nesta data que temos que ser tolerantes quando é que vamos set. Ai onde hoje é a banda de música era a nossa escola ei aprendi a ser solidário com aqueles que não tinham nada e por isso digo Bem Haja quem dá luz aqueles que nada teem.
    Termino desejando muitas felicidades no seu trabalho e votos de muitas boas festa

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