Pedro Rodrigues, ex-presidente do FC Cesarense e homem ligado ao futebol profissional, concedeu uma entrevista ao azeméis.net. Figura incontornável da história recente do clube de Cesar, Pedro Rodrigues defende que o futuro do emblema passa pela entrada de capital externo e pela criação de uma sociedade anónima desportiva. A posição, garante, não é nova: já há cerca de dez anos, quando liderava o clube, defendia publicamente que o Cesarense teria de discutir outro modelo para conseguir sobreviver competitivamente. Nesta entrevista ao azeméis.net, assume apoio total a Pedro Freitas, que será o novo presidente do clube, afasta um regresso aos órgãos sociais devido à sua atividade profissional no futebol e sustenta que, para o clube voltar a competir de acordo com a sua dimensão – que é, no mínimo, disputar o Campeonato de Portugal – “não há como fugir” ao modelo de SAD.
O FC Cesarense é o clube da minha vida
Como olha para o atual momento do FC Cesarense?
O Cesarense é o clube da minha vida. Foi o clube que o meu avô me ensinou a gostar e que o meu pai me levou a acompanhar desde os quatro anos. O meu pai foi roupeiro, massagista e diretor desportivo. Foi diretor da primeira equipa que subiu aos nacionais, em 1982/83. Eu era uma das mascotes dessa equipa, juntamente com o novo presidente do Cesarense, Pedro Freitas. Nessa altura entrávamos juntos em campo.
Ainda é possível ao FC Cesarense competir apenas com o modelo associativo tradicional?
É muito difícil hoje. Pode vir quem vier. Um clube da Elite de Aveiro, que é a divisão em que o Cesarense joga, se não tiver capital externo, tem muita dificuldade em sobreviver. Sou defensor disto há dez anos. Há clubes nesta liga com orçamentos incríveis, basta olhar, por exemplo para AD Ovarense, Ou os clubes assumem que não querem competir a este nível e jogam apenas com equipas da região, por competir, ou então um clube com a dimensão e a história do Cesarense, perto dos 100 anos, tem de passar para aquilo que se goste ou não se goste: sociedades anónimas desportivas.
Não há como fugir à criação de uma SAD?
Não há como fugir disso. Peço desculpa a todos os Cesarenses, mas eu já há dez anos, quando era presidente do Cesarense, tinha essa visão. Em 22 de julho de 2016 lancei um colóquio com o tema “Que futuro para o FC Cesarense?”. Já nessa altura sabia que isto não tinha forma de dar. As empresas, mesmo apoiando muito, não conseguem dar o apoio de que os clubes precisam. E só há uma forma: o Cesarense, com a capacidade que tem e com instalações que são nossas, que são do nosso clube, tem de se abrir ao capital externo.
Atendendo às histórias que se vão tomando conhecimento no futebol português, modelo de SAD é uma oportunidade ou um risco para o clube?
No caso do Cesarense, é uma oportunidade. É um clube que está numa divisão abaixo e não vejo grande problema. Mesmo pensando no pior cenário, o Cesarense recomeçaria duas divisões abaixo. Mas, para jogar à dimensão que eu vejo para o clube, no mínimo no Campeonato de Portugal, levando a nossa vila a competir com clubes de outros distritos, não há outra possibilidade.
As quotas dos associados e os patrocínios locais já não chegam?
Não chegam. Os patrocínios não são maus, são aquilo que as empresas podem dar. Temos de ver isso sempre pelo lado positivo. Há empresas que já nem dão. Mas temos de nos adaptar aos tempos. O futebol mudou. Não é o futebol que amávamos há 20 ou 30 anos. É um futebol mais elitista, mas continua a ser a modalidade e o desporto que atraem milhões e milhões de pessoas.
Pedro Freitas tem o meu total apoio
Está disponível para ajudar Pedro Freitas nesta transição?
Tenho estado em contacto permanente com aquele que será o novo presidente, Pedro Freitas. Somos pessoas que pensamos o Cesarense de forma diferente, mas há uma coisa que está acima de tudo: o Cesarense. O Cesarense está acima de tudo. O Pedro tem todo o meu apoio, porque sinto que é um verdadeiro Cesarense.
Considera Pedro Freitas a pessoa certa para este momento?
Sim. Entendo que é a pessoa certa neste momento, porque é uma pessoa que tinha muita ambição de ser presidente do Cesarense. Está num bom momento para fazer essa transição fundamental para o clube. Tem uma vida profissional complicada, porque está muitas vezes ausente, mas considero que é a pessoa certa para esta fase.
O seu nome é associado à liderança do FC Cesarense sempre que há uma crise diretiva. Como reage?
Não sinto isso dessa forma. As pessoas falam, mas a minha vida hoje é outra. Sou um profissional de futebol e isso cria incompatibilidades. Agora, vou estar sempre disponível para apoiar o Cesarense dentro daquilo que forem as minhas possibilidades. Se me pedirem apoio para fazer um processo de transição ou para a constituição de uma SAD, estarei disponível, porque sinto-me capaz de ajudar o clube nisso.
Afasta, então, um regresso aos órgãos sociais do FC Cesarense?
Sim. Está em causa a minha profissão e a compatibilidade de funções. Mesmo os proprietários do clube que acabei de aceitar nem sequer ponderariam que eu pudesse ter qualquer função nos órgãos sociais do Cesarense. Mas o Cesarense será sempre o meu clube. O clube do Cesarense será sempre o meu clube.
Pedro Freitas como sócio sugeriu em Assembleia Geral a criação de uma Comissão de Honta, adiantando o seu nome como um dos elementos integrantes. Aceitaria?
Não faz sentido. Uma comissão de honra deve honrar quem deu muito ao clube. Vejo lá pessoas como Franklin Freitas, pai do Pedro, o meu pai e outras pessoas que, nos anos 80 e 90, tanto deram ao Cesarense. Foram eles que nos passaram este sangue cesarense. Esses, sim, devem fazer parte de uma comissão de honra. Eu ainda não o mereço.
Mas é um facto que já deixou obra no clube e na vila…
Já fiz o meu trabalho, não só no Cesarense, mas em várias entidades e coletividades. Fui fundador da Vila César, fiz duas comissões de festas quando não havia ninguém para as fazer, lancei o Mundialito em 2015 e comecei também a prova de atletismo. Mas aquilo que me dá mais satisfação é ver que hoje as pessoas usufruem disso. Vejo isto como uma questão de visão, mais nada.
