Há pais que passam a noite à porta do Centro Lúdico, em Oliveira de Azeméis, para tentar garantir uma vaga nas férias dos filhos no programa Azemés em Férias promovido pela autarquia oliveirense. Não é uma imagem confortável, nem uma realidade fácil de aceitar: famílias à espera, durante horas, junto a um equipamento público, porque sabem que as vagas são limitadas e que chegar tarde pode significar ficar de fora.
Para muitos pais, as férias escolares não são apenas tempo livre das crianças. São também semanas difíceis de organizar, entre horários de trabalho, ausência de retaguarda familiar e necessidade de encontrar uma resposta segura, acessível e com qualidade para os filhos. É nesse contexto que o Centro Lúdico se torna uma das respostas mais procuradas pelas famílias oliveirenses.
A procura não é nova. Em agosto de 2024, o azeméis.net já tinha escrito que havia famílias a deslocarem-se para o Centro Lúdico “de madrugada”, no dia das inscrições, para garantirem a participação dos filhos no programa municipal de férias. Nessa altura, a autarquia assumia a intenção de aumentar o número de participantes em futuras edições. A edição então noticiada tinha contado com 66 crianças e o objetivo anunciado era fazer crescer esse número.
+ Ler artigo: Autarquia quer aumentar número de participantes do “Azeméis em Férias” em 2025
Agora, nem reunião de executivo municipal, foi referido que as vagas disponíveis rondavam as 70 a 80 inscrições. Ou seja, face às 66 crianças referidas em 2024, houve um aumento, mas ainda dentro de uma margem curta para a dimensão da procura. O crescimento da oferta não foi suficiente para evitar que o problema regressasse com mais força: se antes havia pais a chegar de madrugada, agora há relatos de pais a passarem a noite à porta do Centro Lúdico para tentar garantir uma vaga. Esta realidade foi transmitida pelo vereador da AD, João Costa.
O facto de tantas famílias procurarem esta resposta mostra que o projeto é valorizado. Mas também revela uma pressão crescente sobre o programa. Quando uma vaga se transforma numa corrida contra o tempo, a ansiedade começa muito antes da abertura das inscrições. Para quem trabalha, para quem não tem apoio familiar disponível ou para quem não consegue recorrer a alternativas privadas, uma vaga nas férias municipais pode fazer toda a diferença.
O problema, por isso, não está na qualidade do projeto. Pelo contrário. Está no caminho que as famílias têm de fazer para chegar até ele. Passar uma noite à espera, ao relento, para conseguir uma inscrição para uma criança nas férias, é uma imagem que levanta desconforto e obriga a autarquia a olhar para o modelo atual.
A questão vai além da tecnologia ou da burocracia. Não se trata apenas de saber se as inscrições devem ser presenciais, online ou mistas. Trata-se de perceber se é aceitável que o acesso a uma resposta pública dependa da capacidade de um pai ou de uma mãe passar a noite numa fila. E trata-se também de saber se o concelho tem respostas suficientes para acompanhar as necessidades reais das famílias.
Plataforma online será solução para evitar dormidas ao relento
Na reunião, o executivo reconheceu que a situação não é desejável, mas enquadrou o problema na elevada procura e na limitação de vagas. Foi defendido que uma plataforma informática, por si só, não resolveria a falta de lugares: mesmo com inscrição online, continuariam a existir crianças sem vaga. A diferença seria que os pais não teriam de dormir à porta.
Só depois desta realidade humana entrou o debate político. João Costa, da AD, questionou o executivo sobre a forma como as inscrições são geridas e perguntou se não existe outra ferramenta que evite obrigar os pais a uma “pernoite prolongada” junto ao Centro Lúdico. O vereador sublinhou que não punha em causa o projeto, mas sim o método de inscrição, defendendo uma solução com mais dignidade para as famílias.
Pedro Marques, também da AD, endureceu o tom e considerou incompreensível que, no século XXI, pais tenham de dormir à porta de um equipamento público para garantir uma vaga nas férias dos filhos. O vereador defendeu a necessidade de apostar na transição digital, na smart governance e em mecanismos mais modernos, transparentes e ajustados à realidade atual.
Do lado do executivo, a resposta passou por admitir que não existem “soluções milagrosas”. Foi referido que a inscrição online poderia evitar a pernoita, mas não resolveria a escassez de vagas. A prioridade, defendeu a autarquia, deve passar por criar mais respostas de férias no concelho, envolvendo a Câmara e parceiros locais, para reduzir a pressão sobre o Centro Lúdico.
A discussão terminou sem uma solução fechada, mas com um reconhecimento comum: o problema existe e precisa de resposta. Em 2024, havia pais a chegar de madrugada. Em 2026, há pais a dormir à porta. Pelo meio, o número de vagas aumentou de 66 para um intervalo entre 70 e 80, mas a pressão das famílias continua a mostrar que a resposta ainda não chega.
