Numa noite em que o branco toma conta das ruas, das montras e de quem passa pelo centro da cidade, houve uma loja que decidiu introduzir outra cor na paisagem. Na Ternurinha, o preto ganhou uma presença evidente na montra. A escolha não foi apenas estética. Tinha uma mensagem de protesto.
Localizada na Rua Dr. Bento Carqueja, uma das artérias do centro histórico da cidade e uma das vias mais movimentadas durante a Noite Branca, Ternurinha encontra-se precisamente numa das zonas onde a concentração de público, os condicionamentos à circulação e as dificuldades de acesso mais se fazem sentir durante o evento.
Este ano, numa noite dominada pelo branco, a montra apresentou-se carregada de preto e branco. O contraste tornava visível uma posição de desagrado por parte do proprietário, Avelino Amaral.
E o protesto podia ter ido ainda mais longe: chegou a ser equacionada a possibilidade de manter a loja fechada durante a Noite Branca, com os estores corridos.

Do sucesso ao protesto
A posição deste ano ganha maior significado quando comparada com a relação que a Ternurinha já teve com a Noite Branca.
A loja participou ativamente em edições anteriores e chegou a protagonizar um dos momentos mais marcantes da iniciativa, ao apresentar manequins reais vestidos com lingerie e roupa interior.
A ação despertou atenção e foi encarada como um caso de sucesso.
A imagem de então contrasta com a deste ano. A loja que já procurou surpreender e participar diretamente na animação do evento decidiu agora utilizar a própria montra para transmitir uma mensagem de contestação.
Ouvido pelo azeméis.net, Avelino Amaral, proprietário da Ternurinha, faz questão de estabelecer uma diferença: não está contra a realização de eventos, mas sim contra a forma como alguns são organizados.
“Não estou contra o evento, estou contra a maneira como ele é feito”, afirmou.

“Não estou contra o evento”
A crítica de Avelino Amaral começa antes de a Noite Branca chegar propriamente às ruas.
Segundo o comerciante, os condicionamentos relacionados com os eventos começam a fazer-se sentir com antecedência, sobretudo ao nível do estacionamento, que considera já ser um dos problemas do centro da cidade.
Na sua perspetiva, quando começam a surgir limitações nas ruas e diminuem as possibilidades de estacionamento, também diminui a disponibilidade de quem pretende deslocar-se ao centro para fazer compras.
Avelino Amaral refere que, em determinados eventos, esses constrangimentos começam já na quinta-feira, mesmo quando a maior concentração de público acontece mais tarde.
Para o proprietário da Ternurinha, isso significa vários dias de impacto para quem depende da atividade comercial diária.
O comerciante entende que os eventos devem realizar-se, mas considera essencial encontrar soluções que permitam compatibilizar a animação da cidade com a atividade das lojas.
“Os eventos têm que ser feitos, mas têm que se criar condições para não prejudicar o comércio”, defende.
Estacionamento e acessos no centro da crítica
A falta de estacionamento é um dos pontos que mais inquieta Avelino Amaral.
Na sua leitura, quando alguém pretende deslocar-se ao centro para comprar e não consegue encontrar condições para estacionar ou chegar às lojas, acaba muitas vezes por desistir.
É precisamente por estar instalada na Rua Dr. Bento Carqueja, uma das vias de maior movimento durante a Noite Branca, que esta questão assume particular importância para Ternurinha.
O proprietário considera que o comércio acaba por ficar diretamente exposto às alterações de circulação e aos condicionamentos que acompanham os grandes eventos.
No seu depoimento ao azeméis.net, insiste que não está em causa impedir iniciativas no centro da cidade. O que reclama é uma organização que tenha também em conta os estabelecimentos comerciais que funcionam nesses espaços.
Para Avelino Amaral, o comércio precisa de movimento, mas precisa igualmente de condições para que os clientes possam chegar.
Eventos fora do centro também geram críticas
O descontentamento de Avelino Amaral não se limita aos eventos realizados no centro urbano.
O comerciante aponta também aquilo que considera uma contradição na localização de determinadas iniciativas: atividades que poderiam trazer famílias, visitantes e potenciais clientes para o centro acabam, segundo afirma, por ser realizadas fora da zona urbana.
No depoimento, dá como exemplo a programação de Natal.
Na sua perspetiva, alguns divertimentos associados à época natalícia ficam concentrados noutras zonas, afastando do centro crianças, pais e outros familiares que poderiam circular pelas ruas comerciais.
“O comércio é o garante da terra”, sustenta Avelino Amaral, que considera os comerciantes locais pouco apoiados nas decisões relacionadas com a organização dos eventos.
Na leitura do proprietário da A Ternurinha, deveria existir um equilíbrio diferente: iniciativas com capacidade de gerar movimento e consumo deveriam também contribuir para levar pessoas ao centro, enquanto eventos que exigem grandes condicionamentos deveriam ser pensados de forma a minimizar o impacto sobre a atividade comercial.
Reuniões com comerciantes “para inglês ver”
A crítica estende-se à relação entre os comerciantes e a autarquia.
Avelino Amaral reconhece que os comerciantes são chamados a participar em reuniões, mas considera que aquilo que é defendido nesses encontros acaba por ter pouca tradução prática.
O proprietário da A Ternurinha é particularmente crítico sobre a utilidade desses momentos de auscultação.
“Tudo o que a gente lá diz não conta”, afirmou ao azeméis.net.
Segundo Avelino Amaral, acaba por prevalecer “a ideia de quem está a dirigir” a autarquia, razão pela qual classifica essas reuniões como sendo, na sua opinião, “para inglês ver”.
Entre as propostas que diz não ver refletidas posteriormente nas decisões está precisamente a forma como os eventos são distribuídos entre o centro urbano e outras zonas.
O comerciante considera que essa discussão se repete, mas sem produzir alterações significativas.
“Estão a fazer um funeral ao comércio”
É quando aborda as limitações à circulação automóvel que o discurso de Avelino Amaral se torna mais duro.
“O comércio já está morto por dias, agora estão a fazer um funeral ao comércio”, afirmou.
Avelino Amaral questiona a existência de estruturas metálicas ou mecos utilizados para impedir ou condicionar a passagem de automóveis em zonas onde existem estabelecimentos comerciais.
Na sua perspetiva, impedir completamente a circulação automóvel pode afastar clientes e contribuir para agravar as dificuldades do comércio tradicional.
O proprietário refere mesmo o desaparecimento de dois mecos numa determinada zona, embora deixe claro que desconhece o que aconteceu.
“Não sei se foram retirados, se foi alguém que tirou. Não sei. Desapareceram”, afirmou.
Para Avelino Amaral, existe uma relação direta entre acessibilidade e vitalidade comercial.
“Onde há comércio, se não tiver trânsito de automóvel, o comércio morre”, defendeu.
Segurança para os peões, mas sem fechar o trânsito
A crítica às restrições automóveis não significa, porém, que Avelino Amaral defenda a circulação sem regras.
No depoimento ao azeméis.net, o comerciante reconhece expressamente a necessidade de criar condições de segurança para quem circula a pé.
A solução que propõe passa por compatibilizar as duas realidades.
“Onde há comércio tem que haver condições para o trânsito surgir acondicionado e segurança para os peões”, afirmou.
Avelino Amaral defende, por exemplo, a possibilidade de manter uma faixa estreita que permita a passagem condicionada de veículos, garantindo simultaneamente espaço e segurança para os peões.
É, na sua perspetiva, uma alternativa ao corte total do trânsito em zonas de forte presença comercial.
O preto como mensagem numa Noite Branca
É neste contexto que a montra da Ternurinha ganha um significado que vai além da decoração.
A loja que já participou ativamente na Noite Branca, que já procurou surpreender quem passava pela Rua Dr. Bento Carqueja e que chegou a transformar a própria montra num momento de animação, escolheu este ano outro registo.
O preto surgiu com força numa noite em que o branco é a imagem de marca.
A escolha funcionou como sinal visível de descontentamento.
A hipótese de fechar a loja, com os estores totalmente corridos, chegou a ser ponderada. Acabou por não acontecer.
A Ternurinha manteve-se aberta.
Mas, numa das ruas mais movimentadas da Noite Branca, a montra deixou uma mensagem difícil de ignorar: desta vez, o preto também fazia parte da noite.

