O jornalista António José Leite, da TVI e da CNN Portugal, natural de Oliveira de Azeméis, falou pela primeira vez publicamente sobre aquela que é a maior tragédia da sua vida. Fê-lo numa entrevista emotiva ao programa Dois às 10, da TVI, onde abriu uma memória que durante 17 anos manteve resguardada: o desaparecimento do irmão, Afonso Tiago, em Berlim, em 2009.
Durante 58 dias, a família viveu sem saber o que tinha acontecido. Foram semanas de espera angustiante, de telefonemas sem respostas, de hipóteses levantadas e descartadas, de esperança que teimava em sobreviver mesmo quando o tempo parecia correr contra ela.
Quase duas décadas depois, António José Leite decidiu finalmente falar sobre esse período — um capítulo que marcou profundamente a sua vida e a forma como passou a olhar para o mundo.
A noite que mudou a vida da família
No início do ano de 2009, Afonso Tiago tinha 27 anos e vivia em Berlim. Engenheiro, começava a construir um percurso promissor ligado à área aeroespacial, depois de iniciar atividade na Agência Espacial Europeia.
Era um momento de entusiasmo e de futuro aberto. Numa noite de janeiro, saiu com um grupo de amigos. Já de madrugada, separou-se deles. Nada fazia prever que aquele momento banal — o final de uma noite entre amigos — se transformaria num dos episódios mais marcantes da história da família.
Foi a última vez que alguém o viu. A partir daí instalou-se uma incerteza total. O desaparecimento inesperado deixou familiares e amigos sem qualquer explicação para o que tinha acontecido.
58 dias de espera e sofrimento
Seguiram-se semanas que pareceram intermináveis. Durante 58 dias, a família de Afonso Tiago viveu sem qualquer notícia sobre o seu paradeiro. Cada manhã começava com a esperança de que pudesse surgir uma pista, um telefonema, uma informação que ajudasse a perceber o que tinha acontecido naquela noite em Berlim.
Mas as respostas não chegavam. A ausência prolongava a angústia e alimentava a incerteza. A cada dia que passava, a família oscilava entre a esperança de encontrar o jovem engenheiro e o medo crescente de que algo grave pudesse ter acontecido. António José Leite recorda esse período como um tempo de sofrimento profundo. “Foram 58 dias de muito sofrimento”, diz.
Apesar da angústia e do passar do tempo, a esperança nunca desapareceu completamente. Mesmo quando começava a enfraquecer, continuava presente: “A esperança vai-se esbatendo, mas acreditamos sempre. Ainda vamos encontrar vivo.”
Foram semanas vividas numa espécie de suspensão emocional, em que cada notícia, cada desenvolvimento da investigação, podia representar tanto um alívio como um novo motivo de preocupação.
Rapto, homicídio, espionagem ou fatalidade
Sem pistas claras sobre o que tinha acontecido naquela noite em Berlim, o desaparecimento de Afonso Tiago rapidamente se transformou num mistério difícil de explicar. Os dias passavam e as perguntas multiplicavam-se. Onde estava? O que tinha acontecido depois de se separar dos amigos? Teria sofrido um acidente? Ou estaria envolvido em algo mais grave?
Sem respostas concretas, todas as hipóteses começaram a ser consideradas. As autoridades tentavam reconstruir os últimos momentos do jovem engenheiro, enquanto a família acompanhava cada desenvolvimento da investigação com ansiedade crescente.
Nesse período, recorda António José Leite, chegaram a ser equacionados diferentes cenários — alguns deles difíceis de imaginar. “Suspeitou-se de tudo: espionagem, rapto, homicídio… ou uma fatalidade”, recorda.
Cada possibilidade abria novas perguntas e alimentava a angústia da família. Entre rumores, investigações e buscas, os dias iam passando sem que surgisse uma resposta clara para o desaparecimento. Enquanto isso, a esperança mantinha-se viva — mesmo quando o tempo parecia tornar cada cenário mais incerto.
A resposta que ninguém queria ouvir
Quase dois meses depois do desaparecimento, chegou finalmente a resposta que todos temiam. Durante semanas, a família viveu agarrada à esperança de encontrar Afonso Tiago. Mas, ao fim de 58 dias de buscas e incerteza, surgiu a confirmação que colocava fim ao mistério.
O jovem engenheiro tinha caído num rio gelado em Berlim naquela noite de janeiro. A notícia trouxe respostas para um desaparecimento que tinha deixado a família suspensa entre a esperança e o medo. Mas trouxe também a certeza mais difícil de aceitar.
Depois de semanas a imaginar cenários, a acompanhar investigações e a esperar por qualquer sinal, a realidade impôs-se de forma dura. A angústia da incerteza dava lugar ao peso definitivo da perda.
Anos depois, António José Leite admite que a dor daquele momento continua presente. “Claro que dói. Vai doer sempre.” A perda do irmão tornou-se uma marca permanente na sua vida — uma ausência que não desaparece com o tempo, mas que aprende a conviver com o passar dos anos.
Um luto que demora anos
Aceitar a perda não foi imediato. Pelo contrário, foi um processo longo, silencioso e profundamente doloroso. Depois da confirmação da morte do irmão, António José Leite teve de aprender a viver com uma ausência que mudou para sempre o equilíbrio da família. O choque inicial deu lugar a um luto difícil, feito de muitas perguntas, memórias e momentos de fragilidade.
O jornalista recorda noites em que a dor parecia impossível de suportar, dias em que o silêncio pesava e em que a única forma de lidar com a perda era deixar as emoções sair. “É uma dor que demorou muitos dias na almofada, em lágrimas, até ser tolerada”, desabafa. Durante muito tempo, admite, não conseguiu permitir-se voltar a ser feliz. A ausência do irmão parecia ocupar demasiado espaço para que a vida pudesse recuperar alguma normalidade.
Com o passar dos anos, no entanto, foi encontrando uma forma de lidar com essa ausência. Aprendeu que o luto não desaparece — transforma-se. A dor continua presente, mas deixa de dominar todos os momentos. Ainda assim, há dias em que o peso da perda regressa de forma inesperada.
Há momentos, explica, em que “não aceitamos nada disto e vemos o mundo todo ao contrário”, sobretudo quando pensa na idade do irmão e na pessoa especial que era para todos os que o rodeavam. Hoje, António José Leite diz que aprendeu a conviver com essa saudade. E que, apesar da dor, encontrou uma forma de continuar a viver — permitindo-se voltar a ser feliz, sem nunca esquecer quem partiu.
A Praia da Torreira, um lugar de reencontro
Entre os lugares que mais marcaram a sua vida está a Praia da Torreira, em Aveiro. Foi ali que passou grande parte da infância com os irmãos. Um lugar feito de memórias simples: jogos de voleibol na areia, corridas junto ao mar, tardes de verão que pareciam intermináveis.
“Chorei e ri muitas vezes aqui”, recorda. Com o tempo, a Torreira tornou-se mais do que um lugar de férias. Tornou-se um espaço de recolhimento, de silêncio e de reencontro consigo próprio.
Ali aprendeu também pequenas lições que guarda até hoje. “Aprendi a contar as ondas, a perceber quando é que posso mergulhar”, conta.
A vida depois da dor
Com o passar dos anos, António José Leite foi aprendendo a reorganizar a vida em torno de uma ausência que nunca desaparece por completo. A morte do irmão tornou-se uma marca profunda na sua história pessoal, algo que mudou a forma como olha para o tempo, para as pessoas e para o próprio futuro.
Hoje admite que as perdas lhe trouxeram uma nova consciência sobre a vida. Diz que passaram a existir mais respeito pelo que ainda está por vir e também mais coragem para enfrentar medos que antes pareciam maiores.
Mas esse caminho não foi linear. O luto não desapareceu com o tempo — transformou-se. Há dias em que a memória do irmão regressa com mais intensidade, em que a saudade pesa mais e em que a ausência volta a ocupar o centro dos pensamentos.
Nesses momentos, confessa, é impossível não voltar atrás e pensar na vida que poderia ter sido. Ainda assim, António José Leite diz que encontrou uma forma de continuar. Ao longo dos anos percebeu que a dor e a felicidade não são incompatíveis — podem coexistir.
Foi um processo lento, feito de pequenas reconciliações com a vida, até chegar ao momento em que se permitiu novamente ser feliz. Mesmo assim, a memória do irmão continua viva nos detalhes mais simples — no cheiro, no sorriso, na voz que ainda parece ecoar nas lembranças. “Ainda sinto o odor do meu irmão, o tato, o sorriso, o som”, admite.
Entre recordações, saudade e dias mais difíceis, António José Leite aprendeu que seguir em frente não significa esquecer. Significa continuar a viver, levando consigo a memória de quem partiu.

