Segunda-feira, 2 de Março de 2026
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De Minas Gerais a Azeméis: a travessia de Lúcio

> O jornal Samuel Santos vai apresentar o livro "Cá Entre Nós" em Oliveira de Azeméis. Nesta Carta de Algibeira mergulha já na obra do escritor Lúcio Marques Filho.

A vida adulta obriga-nos a torcer mais o nariz do que a crer na boa-fé alheia. Foi o que fiz quando, via LinkedIN – no final de 2025 – recebi mensagem de um tal Lúcio Marques Ferreira Filho, de 71 anos, “paulista e carioca circunstancialmente” que acabara de publicar um livro sobre as raízes paternais no Pinheiro da Bemposta e em Oliveira de Azeméis, região que sente como sua, até porque se assume como discípulo de Ferreira de Castro.

Outrora profissional no setor da aviação e docente de literatura, Lúcio estreou-se nestas lides em 2004 – “Êxodos, Encontros e Desencontros” – revelou inúmeras crónicas no “Cidades Visíveis” (2021) e publicou o primeiro romance em 2025. O “Cá entre Nós” é o mote para esta carta, sobre um lusodescendente que perspetiva Azeméis com particular amor, num “acerto de contas” com a memória do pai, que deixou Portugal em 1923.

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Aceitei o convite e embarquei na travessia de Lúcio. É uma alma jovem, humanista, sensível, honesta e corajosa. Ambos admiramos Ferreira de Castro, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, Camões, Lídia Jorge, Virgílio Ferreira, Miguel Torga, entre outros.

Tal como avisa Onésimo Teotónio Almeida no prefácio, o “Cá entre Nós” decorre a vários ritmos, como se “três livros à cabeceira” se entrelaçassem. São vaivéns ao Estado Novo e ao Brasil – com os Estados Unidos pelo meio – com a memória a orientar o autor em demandas por Azeméis, Pinheiro da Bemposta, Torreira, S. Jacinto, Aveiro, Espinho, Porto, Gaia, Leiria, Lisboa e Sintra.

E há um terceiro ritmo, ditado pelas “Três Marias”, as guardiãs ancestrais que vão compor as “Novíssimas Cartas Portuguesas”, inspiradas pela freira Mariana Alcoforado (1669) e pelo icónico trio de 1974: Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Entre cartas, crónicas, angústias e triunfos, há também inimigos e obstáculos para Lúcio, espelho da realidade tantas vezes antagónica aos valores de Abril. Neste livro não há medo da natureza errante e efémera. Não se teme a verdade.

“Portugal não precisa de uma limpeza étnica nem do retorno de uma raça pura. Portugal fez-se no mundo, foi e é uma nação expandida. (…) Escreveu-se este livro na primeira pessoa, mas o seu herói implícito é um coletivo, todo ele descendente da diáspora lusitana. (…) Estou a propor que ambas as partes olhem para as suas árvores genológicas, encontrem nas suas raízes o húmus necessário para replantar com humildade, com humanidade” – in “Cá entre Nós”, p. 76.

Ora, bendito o momento em que embarquei nesta travessia. O nosso conterrâneo vai espalhando brilho por Póvoa de Varzim, Porto e Lisboa, além de conceder entrevistas.

Vai relatando que o livro vende que nem pãezinhos quentes. E vai estar na Biblioteca Municipal Ferreira de Castro na tarde de 7 de março (sábado, 15h00), numa sessão de entrada livre e que se quer de casa cheia. O protagonista desta carta fez questão que eu conduza a sessão. Por isso, faço questão que estejam presentes, para uma tarde de partilha e redescoberta.

Li o “Cá entre Nós” e tenho exatamente 1300 palavras anotadas para a sessão.

Lembrou-me dos agridoces meses de tese. Contamos convosco. Até já!

“Quando um indivíduo se orgulha das suas origens, as comunidades orgulham-se dele», in “Cá entre Nós”, p. 19.

Santiago de Riba-Ul,
28 de fevereiro de 2026

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