Domingo, 31 de Maio de 2026
Domingo, 31 de Maio de 2026

Porque é que o dinheiro está “quebrado”? | Inflação e possíveis soluções

> Análise de Diana Costa, – Country Specialist na Rankia Portugal, analisa a quebra do poder de compra das novas gerações.

Já reparou não apenas em como os preços sobem ao longo dos anos — algo que podemos associar aos episódios inflacionistas mais recentes — mas também em como, ao longo das décadas, o poder de compra das novas gerações se deteriorou profundamente?

Algo que antes era considerado essencial para ter uma “vida normal”, como aceder a uma habitação e pagá-la em 10 a 15 anos, ao mesmo tempo que se pagava um automóvel, tornou-se hoje praticamente uma quimera. O que aconteceu? Porque é que o mundo que, há 25 anos, muitos acreditavam representar o “fim da história” parece ter desaparecido?

A partir destas questões, apresento a análise de um dos livros de divulgação económica que mais destaque teve em 2025: Broken Money: Why Our Financial System Is Failing Us and How We Can Make It Better.

Ao longo desta análise, veremos os motivos que levam Lyn Alden, autora da obra, a formular esta afirmação e quais são os elementos que, segundo a autora, ajudam a compreender melhor o funcionamento do sistema financeiro atual.

Porque há algo que importa ter em conta: compreender estas dinâmicas pode ser um passo relevante para não ficar à margem das mudanças que estão a ocorrer no sistema monetário e financeiro global.

O que significa dizer que “o dinheiro está quebrado”?

Passei várias semanas a ver nas redes sociais a expressão “o dinheiro está quebrado”, em inúmeros vídeos e shorts. E sim, para além do impacto da própria expressão — que de facto é bastante chamativa — ficava a perguntar-me: afinal, o que significa realmente isso?

Foi então que descobri este livro que propõe uma leitura relativamente rápida, escrita numa linguagem clara e direta, sem os habituais tecnicismos rebuscados que muitas vezes caracterizam o discurso económico.

Naturalmente, a autora não está a dizer que o euro vai desaparecer amanhã, nem que o sistema financeiro vai colapsar no próximo mês. Trata-se antes de uma forma de resumir uma ideia bastante simples:

Para a maioria das pessoas comuns, o dinheiro já não cumpre aquilo que durante muito tempo foi considerado garantido. Poupar e “fazer as coisas bem” já não assegura, necessariamente, progresso.

Durante décadas, o guião era relativamente claro:

● Tinhas um emprego estável.

● Guardavas algum dinheiro todos os meses.

● E com essas poupanças podias construir uma vida: a entrada para uma casa, um automóvel e a sensação de que estavas a avançar, num contexto em que o crescimento do capital ao longo do tempo, muitas vezes associado ao efeito dos juros compostos, ajudava a reforçar essa progressão.

Mesmo que apenas fizesse as coisas de forma razoável ao longo do tempo, não era particularmente invulgar que, por volta dos 50 anos, surgisse a possibilidade de comprar uma segunda casa.

Hoje, esse guião tornou-se mais difuso. Podes estar a fazer exatamente o mesmo — trabalhar, ser prudente, poupar — e ainda assim sentir que estás a correr na famosa “corrida dos ratos”. Moves-te, mas não chegas a lado nenhum.

Mesmo em Portugal, não é raro encontrar adultos perto dos 30 anos a partilhar casa.

É por isso que se fala de “dinheiro quebrado”.

Porque o dinheiro, em vez de ser uma ferramenta de estabilidade, passou a funcionar sobretudo como uma ferramenta de sobrevivência no curto prazo. Serve para pagar as despesas do mês, mas torna-se cada vez mais difícil utilizá-lo para construir futuro.

Cheguei até a ler manchetes na imprensa que diziam algo como:

Se lhe sair a Lotaria de Natal, talvez consiga dar a entrada para uma casa.

Naturalmente, este tipo de título tem os seus matizes. Seria preciso perceber se se referia a um apartamento em Lisboa ou numa pequena localidade do interior.

Ainda assim, há um ponto que parece cada vez mais evidente: as regras do jogo mudaram. Hoje, apenas poupar já não garante proteção nem necessariamente progresso.

O que aconteceu?

Vou tentar resumir um ensaio com mais de 500 páginas. De forma muito simplificada, os principais motivos apontados seguem uma lógica encadeada, em que cada etapa surge como consequência da anterior.

Ouro: quando se quebrou a corrente que prendia o relógio às horas

Ou, talvez mais precisamente, quando foi quebrada por aqueles que defenderam que “o seu sistema era melhor”.

Até ao fim do padrão-ouro (1971), existia um travão externo à criação de dinheiro. E esse travão não era a confiança nos responsáveis políticos, mas sim o ouro.

Durante décadas, o sistema monetário internacional — com várias nuances — funcionou segundo a lógica de que a moeda estava associada a uma determinada quantidade de ouro (35 dólares por onça). Isto não significava que qualquer pessoa pudesse ir ao banco com uma nota e exigir a correspondente quantidade de ouro — isso dependia do país e do período histórico —, mas implicava que os bancos centrais tinham de manter alguma disciplina.

Se fosse emitido demasiado dinheiro, a confiança podia deteriorar-se e aumentar os pedidos de conversão em ouro, o que, na prática, obrigava o sistema a regressar a um certo equilíbrio.

Por isso, investir em ouro voltou a ganhar popularidade neste terceiro grande ciclo.

E importa sublinhar que não são poucos os especialistas que apontam para um preço potencial próximo dos 10.000 dólares por onça até 2030.

De 35 dólares por onça para uma previsão de 10.000, essa seria uma forma de ilustrar a desvalorização das poupanças ao longo do tempo.

Porque, quando essa referência ao ouro é abandonada, a moeda passa a ser fiat. Ou seja, vale porque o Estado a declara válida, porque os impostos são pagos com ela e porque o sistema confia que continuará a funcionar. No entanto, com a crescente procura por ativos que não geram rendimento por si próprios — como o ouro — alguns analistas consideram que essa confiança se torna cada vez mais frágil.

Agora, o limite é a confiança

Ao quebrar-se a ligação ao ouro, o Estado deixa de ter de justificar a emissão de moeda com base numa reserva física limitada. Consequentemente, financiar o sistema torna-se muito mais fácil.

Como? Através de duas alavancas que se alimentam mutuamente:

  • Mais dívida: o Estado gasta hoje e compromete-se a pagar no futuro (através da emissão de obrigações).

Evolução da dívida pública dos EUA

  • Mais dinheiro em circulação: o banco central pode “facilitar” esse processo (reduzindo as taxas de juro, comprando dívida ou fornecendo liquidez ao sistema).
Evolução da massa monetária M2, que mede a quantidade
de dinheiro em circulação

E, de facto, ambos os indicadores registaram aumentos muito significativos.

O problema, segundo esta interpretação, não está necessariamente na utilização destas ferramentas para responder a necessidades pontuais de financiamento público, mas sim no facto de o seu uso se tornar estrutural para sustentar níveis elevados de despesa e compromissos públicos (pensões, défices orçamentais, aumento do número de funcionários públicos, entre outros).

E, na ausência de um travão físico claro, o limite passa a ser simplesmente até onde o sistema consegue aguentar.

A consequência?

A inflação dos ativos reais

Se houver mais euros ou dólares a perseguir os mesmos bens, o dinheiro tende a perder valor.

Por vezes isso torna-se visível no índice de preços no consumidor, mas muitas vezes manifesta-se sobretudo nos ativos reais — como a habitação, o mercado acionista, o ouro ou mesmo o Bitcoin — que é onde acaba por fluir grande parte desse excesso de liquidez.

É neste ponto que muitos observadores falam numa possível ruptura do sistema.

  • Os rendimentos provenientes do trabalho não aumentaram à mesma velocidade que os preços — sobretudo os dos ativos reais — em parte porque o crescimento da produtividade permanece relativamente limitado.
  • Ao mesmo tempo, com o aumento da oferta monetária, quem já detém esses ativos tende a beneficiar da sua valorização.

Desta forma, o sistema acaba frequentemente por favorecer quem já está dentro do jogo — como proprietários de habitação ou detentores de ativos financeiros — e por dificultar a situação de quem chega mais tarde.

Isso acontece porque os elementos que normalmente contribuem para a construção de património e estabilidade a longo prazo costumam estar associados a ativos como habitação, instrumentos financeiros (ações ou fundos) ou ouro, aos quais alguns analistas acrescentam também Bitcoin.

Existe solução?

A partir deste ponto — que corresponde à segunda parte do livro — a autora aborda a hipótese de um sistema monetário alternativo, referindo a possibilidade de um modelo inspirado no funcionamento do Bitcoin.

Em teoria, um regresso a um sistema monetário mais rígido pode parecer coerente quando analisado de forma conceptual. No entanto, uma mudança dessa natureza poderia implicar custos económicos significativos no curto e médio prazo.

Além disso, trata-se de uma questão que ultrapassa largamente as decisões individuais.

Essa não é propriamente uma decisão que esteja nas mãos de cada indivíduo. E é aqui que recupero uma ideia frequentemente repetida por vários analistas: mesmo quando se reconhecem as falhas do sistema, continua a ser necessário compreender as suas regras e a forma como estas moldam a economia real.

Se o dinheiro perdeu parte da sua função como instrumento de estabilidade, a consequência mais visível é que guardar poupanças, por si só, já não oferece a mesma proteção que oferecia noutras décadas.

Por outras palavras, se aceitarmos a ideia de que o dinheiro está progressivamente mais fragilizado — seja por via da inflação, da expansão monetária ou da valorização desigual dos ativos — então o verdadeiro problema já não está apenas no diagnóstico, mas também na dificuldade em preservar poder de compra ao longo do tempo.

No fundo, é isso que leva tantos autores e analistas a defender que o sistema atual tende a favorecer quem já detém património e a dificultar a vida de quem depende apenas do rendimento do trabalho.

Por isso, a crítica faz sentido quando aponta para um sistema que ampliou desigualdades patrimoniais e beneficiou, em muitos casos, quem já estava melhor posicionado à partida. É, em parte, essa a lógica associada ao chamado efeito Cantillon, frequentemente referido nos debates sobre inflação e política monetária.

Ainda assim, a resposta não passa apenas por denunciar o problema. Hoje, com o desenvolvimento das plataformas digitais e a maior acessibilidade das corretoras online, tornou-se mais fácil para muitos aforradores procurar alternativas que ajudem a mitigar a perda de valor do dinheiro ao longo do tempo.

Subscreva a newsletter azeméis.net
Facebook
Twitter
Email
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

LEIA TAMBÉM

Leia também

+ Exclusivos

Os ARTIGOS MAIS VISTOS

×