Tenho para mim que frequentar o comércio local é como saltitar entre casas de conterrâneos, conhecidos e amigos. Conhecemos as fundações, a história, desafios e sonhos, acompanhando novidades e (des)aventuras. Os comerciantes destas pequenas cidades sobrevivem sustentados em elos de proximidade, pois não esperam que sejam os forasteiros a investir no negócio. E este elo com os clientes fortalece-se como herança, atravessa gerações.
De Barcelona para Azeméis há mais de 13 anos, uma conceituada perfumaria escolheu uma travessa do centro citadino para florescer, destinada a revolucionar o pensamento sobre aromas e traços de personalidade. Com a quadra festiva já longe, regresso à loja numa segunda-feira de folga e tempestade. Atarefado ao balcão está Ricardo, o proprietário, sempre prestável, paciente e de sorriso rápido. Para lá da missão de reabastecer o stock pessoal, a agenda livre permite analisar dezenas de fragâncias e lançar inúmeras questões.
Não é fascinante conhecer os meandros de indústrias que nos fornecem algo tão simples quanto uma fragância? Algo que não vemos, mas sentimos, influenciando as perceções sobre os outros.
Ricardo, perfumista e protagonista desta carta, revela de que forma os profissionais aprenderam a capitalizar a madeira, a combinar flores, a encontrar soluções químicas para salvaguardar o bem-estar animal e ambiental, e a compor fragâncias inimagináveis – como leite de creme, café, marshmallow, tabaco e caramelo. E com feromonas! Fascinante.
Mais de uma hora volvida, saí da loja com dois frascos, uma sugestão de um café a visitar – vizinho da perfumaria – e o mote para esta carta, que nem planeava compor. Curiosamente, este episódio entroncou no súbito interesse sobre variedades de igrejeiras, túlipas, rosas, cravos, gerberas, dálias, estrelícias, próteas, orquídeas, margaridas, orquídeas, lírios e magnólias. A vida em sociedade desperta a mente e gera oportunidades.
Tenho para mim que frequentar o comércio local é como saltitar entre casas. Caso contrário viveremos sem noção dos diferentes e díspares contextos.
O perfumista Ricardo representa o melhor do comércio de Azeméis, a audácia de investir na cidade, fazendo fé de que o sacrifício o fará alcançar bom porto. A paciência para conversar – pelo genuíno interesse em informar e dar a conhecer o ofício – fazem dele precioso. Ele sabe que regressarei à perfumaria catalã para conhecer renovadas fragâncias, enquanto lanço novíssimas dúvidas. Se as Cartas de Algibeira evoluírem para um roteiro, então visitaremos esta perfumaria em romaria.
Santiago de Riba-Ul, 30 de janeiro de 2026
Uma carta arrancada a ferros, quando a atualidade é cruel com amigos

