Num tempo em que tanto se fala de transparência e democracia local, importa recordar um princípio essencial: o jornalismo não existe para agradar ao poder político. Existe para informar, questionar e escrutinar.
Na reunião de executivo camarário do dia 4 de março, o presidente da câmara municipal, Joaquim Jorge, achou por bem intormeter-se na linha editorial dos jornais locais. Afirmou esperar que a comunicação social se dedique a publicitar aquilo que de bom acontece no concelho e o trabalho desenvolvido pelos diferentes agentes da comunidade.
Confesso que não me recordo de ver um presidente da câmara municipal de Oliveira de Azeméis — ou mesmo da região — ousar dizer publicamente aquilo que um jornal deve ou não deve fazer. Não é uma questão menor. Porque quando um responsável político começa a definir o que espera da comunicação social, aproxima-se perigosamente de um território que numa democracia deve ser sempre evitado: o da tentativa de influenciar ou condicionar a imprensa.
Ninguém discorda da importância de divulgar aquilo que é positivo. O trabalho das associações, das empresas, das instituições e da sociedade civil merece visibilidade e reconhecimento. Também o azeméis.net tem feito, ao longo dos anos, esse trabalho de valorização daquilo que se constrói diariamente no concelho.
Mas o jornalismo não pode limitar-se a isso.
Quando se sugere que a comunicação social deve dedicar-se essencialmente à divulgação do lado positivo, entra-se num terreno delicado: o da tentativa de condicionar o papel da imprensa. O jornalismo não é — nem pode ser — uma extensão da comunicação institucional de quem governa.
Não é preciso mais uma revista VITA.
O concelho já tem uma. E, diga-se, bem financiada.
A revista VITA, órgão oficial da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, cumpre precisamente essa função: divulgar a atividade do executivo, as iniciativas municipais e aquilo que corre bem no concelho — como, aliás, é natural numa publicação institucional.
Segundo foi recentemente discutido em espaço público, e nunca desmentido pela autarquia, essa revista custa cerca de 22 mil euros aos cofres da autarquia.
É um detalhe interessante, sobretudo quando se compara com a realidade desta casa: o orçamento anual do azeméis.net não atinge sequer esse valor.
Ou seja, com menos recursos do que uma única publicação institucional financiada pelo município, este jornal continua a fazer aquilo que considera ser a sua função: jornalismo — não comunicação institucional.
Publicações institucionais têm o seu papel, mas não substituem — nem devem confundir-se — com o trabalho da imprensa livre e independente. O jornalismo não existe para promover executivos nem para produzir narrativas convenientes. Existe para informar os cidadãos e para garantir que o exercício do poder é acompanhado, questionado e debatido publicamente.
E há algo que também importa dizer com clareza: as pessoas mais importantes para o azeméis.net não são os titulares de cargos políticos.
São os seus leitores.
São os cidadãos deste concelho.
É a comunidade oliveirense.
São eles que justificam a existência deste jornal. São eles que têm o direito de ser informados com independência, com rigor e sem filtros institucionais.
Posto isto, senhor presidente, tenho uma má notícia para si: serão os leitores a ter o poder real de decidir se os órgãos de comunicação social que fazem jornalismo em Oliveira de Azeméis — e que não se ficam apenas pelas coisas bonitas — têm futuro ou não. E não qualquer autarca.
É por eles que vale a pena fazer perguntas. É por eles que vale a pena incomodar o poder quando isso se justifica.
Por isso, deixo aqui uma posição clara, enquanto diretor deste jornal: senhor presidente, não conte comigo só para coisas bonitas.
O azeméis.net continuará a valorizar aquilo que merece ser valorizado no concelho, mas também continuará a fazer perguntas, a analisar decisões e a dar espaço ao debate público.
Mesmo quando isso incomoda.
Porque gosto demasiado de jornalismo para o transformar num exercício de conveniência.

Uma resposta
Parabéns pelo vosso trabalho. Um Abraço. João Araújo