“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”
in A Viagem do Elefante de José Saramago
Recordo-me perfeitamente do primeiro final de tarde. De fato de treino, acanhado e com os pés na tijoleira gelada da sede da Banda de Música de S. Tiago de Riba-Ul. Era setembro de 2005 – tinha 6 anos – havia entrado para a escola primária há poucas semanas e aquele edifício servia de casa aos Dragões de Azeméis – escola de Karaté Goju-Ryu. Em boa hora os meus pais foram aconselhados pelo saudoso Dr. Flávio Laranjeira quanto a esta arte marcial secular fundada em Okinawa (Japão).
Apesar da tijoleira, dos desconhecidos e dos intimidantes “Kiais”, a integração foi tão suave quanto o termo “Ju” – a dureza (“Go”) e o estilo (“Ryu”) surgiriam a seu tempo.


Em retrospetiva, admiro a natureza sociável das crianças quando inseridas em contextos que transmitem segurança. Não tenho memória das primeiras interações, mas há amizades que floresceram no Dojo e prevalecem. O mérito é dos Senseis José António, Andreia, Ricardo, Joana e Vítor, obreiros de uma comunidade com várias gerações, envolvida num só rumo.
Viagens, treinos, fases díspares, amizades, momentos partilhados também fora do Dojo e um sentido de família inabalável. A sede conheceu várias moradas, as cores dos cintos alternaram, os diplomas acumularam-se e os Dragões de Azeméis evoluíram para Karaté Clube de Azeméis, estabilizado no coração da cidade.
Viana do Castelo, maio de 2017. O culminar de quase 12 anos e o exame nacional para cinturão negro. Um fim de semana marcante, não só para o corpo. Senti como o pináculo. Todavia, o tempo tratou de reenquadrar a perspetiva.
O percurso académico e profissional – Coimbra, Azeméis, Porto e Lisboa – interrompeu o ciclo. Foram precisos quase nove anos para conjugar horários e predisposições. A mente apelava ao regresso. Em fevereiro de 2026 surgiu o momento ideal.
«No Karaté fazem o quê? Lutam? Só fazem de conta, não é? Isso nem dá para ganhar músculo.»
Num país refém de bola no pé, a cultura desportiva inexistente beneficia inúmeros agentes. Logo, as “modalidades” permanecem nichos, como aldeias fechadas sobre si. O contínuo combate ao silenciamento leva-nos a recordar que o Karaté Goju-Ryu é uma forma de estar, com valores inegociáveis e a clara demarcação ao ódio promovido noutros contextos. A mente alavanca a adaptação, o sacrifício, o controlo e a evolução física.
“Nunca diria que és cinturão negro, és tão calmo”
A humildade é um dos valores inegociáveis. O “Kimono” não distingue nacionalidades, estratos sociais, profissionais, financeiros ou académicos, nem idades ou graduações. Por isso, o cinturão negro reforça a responsabilidade de aperfeiçoar, refletir, observar, escutar e questionar, para que os demais se aliem ao espírito de (re)construção.
Após curtos ciclos noutras frentes desportivas, o regresso ao Dojo aconteceu em fevereiro, alicerçado nos Senseis e no primo Sérgio – companheiro de inúmeros capítulos. A readaptação foi exigente, mas os movimentos, as dinâmicas, as respirações…estava tudo silenciosamente assimilado. A mente e os seus fascínios.
De facto, chegaremos onde nos esperam, mas nunca iguais, pois somos o espelho do trilho e um esboço da rota. O Karaté Goju-Ryu nunca abandonou o meu perfil. É a minha forma de encarar a aventura que não cessa – a vida. Desde 2005.
ありがとうございました
Santiago de Riba-Ul, 30 de junho de 2026
