Qual é a probabilidade de dois músicos chamados João Tavares, ambos do mesmo concelho, se destacarem no mesmo concurso internacional de jazz? Quase nenhuma. Mas foi precisamente isso que aconteceu no 6.º Concurso Internacional de Jazz da Universidade de Aveiro, realizado no âmbito do Campus Jazz – Festival de Jazz da Universidade de Aveiro, onde Oliveira de Azeméis saiu premiada em dose dupla — ou, neste caso, em nome repetido.
De um lado esteve o João Tavares Quinteto, liderado pelo trompetista João Tavares, natural de Oliveira de Azeméis, que conquistou os prémios de Melhor Ensemble e Melhor Arranjo. Do outro, um sexteto liderado por outro músico com exatamente o mesmo nome e apelido: João Tavares, saxofonista tenor natural de Cucujães, distinguido com o prémio de Melhor Composição Original.
A coincidência podia ficar apenas pela partilha do nome, mas foi mais longe. Os dois músicos são do mesmo concelho, apresentaram-se no mesmo concurso, passaram pelo mesmo palco e saíram ambos distinguidos numa edição que colocou Oliveira de Azeméis em particular evidência no panorama emergente do jazz nacional.
Quinteto de João Tavares vence Melhor Ensemble e Melhor Arranjo
O João Tavares Quinteto venceu o CIJ_UA ao conquistar dois dos principais prémios da competição: Melhor Ensemble e Melhor Arranjo, este último atribuído pelo tema “Four in One”.
O ensemble é constituído por colegas estudantes de jazz da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, no Porto. Para além de João Tavares no trompete, o quinteto integra Lucas Oliveira no saxofone, Vicente Almeida no piano, Gonçalo Cravinho no contrabaixo e João Rocha na bateria.
O trompetista João Tavares, que é também aluno na Banda de Música do Pinheio da Bemposta, já tinha participado na edição de 2025 do Concurso Internacional de Jazz da Universidade de Aveiro, embora com outra formação. Ainda assim, dois dos atuais elementos — o contrabaixista Gonçalo Cravinho e o baterista João Rocha — já faziam parte desse ensemble.
Mais do que o reconhecimento artístico, a vitória garante ao quinteto uma importante oportunidade de circulação por palcos de referência do jazz nacional. O Prémio de Melhor Ensemble permitirá ao grupo atuar no próximo Campus Jazz, no Guimarães Jazz, no Estarrejazz e no festival “Que Jazz é Este? Festival de Jazz de Viseu”.
“Mais do que o valor monetário e os troféus, este prémio vai permitir-nos dar quatro concertos fundamentais para começarmos a partilhar a nossa música e dar a conhecer o trabalho que temos vindo a fazer ao longo dos anos”, afirmou o trompetista e líder do ensemble vencedor.
Além das oportunidades de atuação, o Prémio de Melhor Ensemble tem associado um valor monetário de 1500 euros. Já os prémios de Melhor Arranjo e de Melhor Composição Original atribuem 500 euros a cada distinguido.

Outro João Tavares, de Cucujães, vence composição original
A presença oliveirense entre os premiados ficou completa com a distinção atribuída a outro João Tavares, saxofonista tenor natural de Cucujães e aluno do Conservatório de Música da Jobra.
O músico liderou um sexteto que venceu o prémio de Melhor Composição Original com o tema “Universe”. A composição integra um projeto inspirado no cosmos e nasceu da paixão do saxofonista pelo espaço além da Terra. O objetivo, explicou, é que esse trabalho possa resultar, um dia, na gravação de um disco conceptual.
A história ganha ainda outro detalhe curioso: João Tavares apresentou-se ao júri do CIJ_UA no mesmo dia, 3 de junho, em que realizou com êxito a sua Prova de Aptidão Profissional.
O sexteto é composto por João Tavares no saxofone tenor, Bruno Neves na guitarra elétrica, Duarte Rodrigues no piano, Francisco Antunes no acordeão, João Rocha na bateria e João Próspero no contrabaixo.

Final decorreu no Cine-Teatro de Estarreja
Os finalistas do Concurso Internacional de Jazz da Universidade de Aveiro atuaram nos dias 2 e 3 de junho, no Cine-Teatro de Estarreja, num evento que marcou o encerramento do Campus Jazz 2026 e contou com o apoio e parceria do Município de Estarreja.
No dia 2 de junho atuaram Triakis Temaki, Utsuroi – Martim Godinho Group, Guilherme Guedes Quinteto e Quarteto Paulo Carmona. No dia seguinte subiram ao palco outros quatro ensembles: MALGA, Pedro Vieira Quarteto, João Tavares Quinteto e João Tavares Sexteto.
O júri do CIJ_UA foi composto por figuras de destaque ligadas à música, à formação e ao ensino superior na área do jazz. A presidência coube a Jorge Castro Ribeiro, professor do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Integraram ainda o júri Ana Cláudia Gonçalves, autora, compositora, intérprete e professora na Universidade de Évora; Massimo Cavalli, músico e professor na Universidade Lusíada; Óscar Marcelino da Graça, docente da Escola Superior de Música de Lisboa/Instituto Politécnico de Lisboa; e Paulo Perfeito, músico e professor da ESMAE.
Campus Jazz cresce e reforça aposta nos novos talentos
O CIJ_UA tem como objetivo promover a criação artística entre ensembles emergentes do panorama jazzístico em Portugal e reforçar a ligação destes projetos a eventos nacionais e internacionais. Nesse sentido, a Universidade de Aveiro tem estabelecido parcerias com festivais como o Guimarães Jazz, o Estarrejazz e o “Que Jazz é Este? Festival de Jazz de Viseu”, que integram nas suas programações o ensemble vencedor de cada edição.
O Campus Jazz – Festival de Jazz da Universidade de Aveiro começou este ano a 30 de abril e incluiu concertos, masterclasses, workshops, tiny lab talks, jam sessions, Estágio de Big Band e um Showcase de Escolas de Jazz. A programação contou com nomes como Adam Ben Ezra Duo, Philip Lassiter, Amaro Freitas Trio, Rita Payés e Gilad Hekselman.
A edição de 2026 afirmou a multiculturalidade das propostas, manteve a missão formativa e de promoção de novos valores do jazz e consolidou iniciativas como o CIJ_UA e o Estágio de Big Band. A adesão do público, que tem vindo a crescer de edição para edição, registou este ano um aumento de 27% em relação à edição anterior, um dado ainda mais expressivo tendo em conta que o número de eventos foi menor.
No fim, entre prémios, concertos, composições e oportunidades futuras, ficou sobretudo uma história difícil de repetir: dois João Tavares, ambos de Oliveira de Azeméis, distinguidos no mesmo concurso internacional de jazz. Uma coincidência improvável que deu ao concelho três prémios e um lugar de destaque no encerramento do Campus Jazz 2026.

