Há momentos na vida política de um concelho em que se percebe, quase intuitivamente, que um ciclo está a aproximar-se do fim. Não porque haja uma data marcada no calendário, mas porque as circunstâncias começam a alinhar-se de forma inevitável. Em Oliveira de Azeméis, tudo indica que estamos a aproximar-nos de um desses momentos.
Durante quase uma década, a política local foi marcada por dois elementos dominantes: por um lado, a consolidação do poder do Partido Socialista na câmara municipal; por outro, a sombra persistente do processo conhecido como “Ajuste Secreto”. Dois fatores distintos, mas que acabaram por moldar o ambiente político do concelho desde as autárquicas de 2017.
Entretanto, a história foi avançando. Joaquim Jorge tornou-se o primeiro presidente da câmara a conquistar três mandatos consecutivos. Um feito político assinalável, sobretudo num concelho onde, desde sempre, a liderança municipal esteve associada ao Partido Social Democrata. Mas os ciclos políticos, por mais sólidos que pareçam, não são eternos.
O terceiro mandato é sempre um território diferente. A energia inicial dá lugar ao desgaste natural do exercício do poder, as expectativas dos cidadãos tornam-se mais exigentes e as soluções fáceis praticamente desaparecem. Não é uma particularidade local; é uma lei quase universal da política autárquica.
Ao mesmo tempo, aproxima-se o momento em que o processo “Ajuste Secreto” conhecerá o seu desfecho judicial. Durante anos, este caso funcionou como uma espécie de pano de fundo permanente da política local, condicionando perceções, discursos e estratégias. Quando esse capítulo finalmente se fechar, algo importante poderá acontecer: a política voltará a respirar sem essa sombra constante.
E isso terá inevitavelmente consequências.
Porque quando chegarmos às autárquicas de 2029, duas realidades vão coexistir pela primeira vez em muitos anos. O Partido Socialista terá de ir a votos sem a figura de Joaquim Jorge, que não poderá recandidatar-se. E o Partido Social Democrata poderá apresentar-se aos eleitores sem o peso político permanente do processo que marcou os últimos anos.
Mas há uma outra variável, menos discutida, que poderá também pesar nesse novo ciclo: o espaço dos partidos emergentes e tradicionais fora do eixo PS/PSD. Que balanço farão os oliveirenses do primeiro mandato do Chega no concelho? E que papel quererá assumir o CDS – Partido Popular num contexto político que pode voltar a abrir-se?
Dito de outra forma: o partido que governa perde o seu principal rosto político, o principal partido da oposição poderá libertar-se do seu maior constrangimento, e outras forças procurarão afirmar-se num terreno mais competitivo.
São raros os momentos em que estas circunstâncias se cruzam.
Isso não significa que o poder vá mudar automaticamente de mãos. A política nunca é tão linear. O PS continua a ter uma posição consolidada no concelho e tempo suficiente para preparar a sucessão. O PSD, por seu lado, terá de provar que aprendeu com o passado e que é capaz de apresentar um projeto credível para o futuro.
Mas uma coisa parece clara: o próximo ciclo político em Oliveira de Azeméis ainda não está escrito.
Talvez por isso seja cedo para falar de vencedores ou vencidos. O que faz mais sentido, para já, é reconhecer que o concelho aproxima-se de um momento raro — aquele em que a política deixa de estar prisioneira do passado e volta a discutir, com liberdade, o futuro.
E nesses momentos, mais do que os partidos, o que verdadeiramente conta é a qualidade das ideias e das lideranças que se apresentam aos cidadãos. Porque quando um ciclo termina, a pergunta inevitável não é quem governou ontem.
É quem está preparado para governar amanhã.
